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jewel

abril 10, 2014

Oi, Fer,

Hoje liguei o shuffle no trabalho e enquanto preparava um relatório cheio de dados estatísticos apareceu você. Apareceu você naquela fita cassete que você me gravou com as músicas de uma de suas cantoras favoritas. Fita cassete que decorei faixa a faixa porque queria aprender inglês -era assim que eu aprendia- e porque adorava música assim, meio triste. E você apareceu toda, depois de tanto tempo desaparecida da minha vida. Lembrei do calo do seu dedo médio, que você desenvolveu pelo jeito que pegava a caneta. Lembrei da sua risada contida, mas incontida. E lembrei de que já faz quase 4 anos que você se foi. Passou tudo tão rápido, flor. E tanta coisa aconteceu. Será que você ia gostar da Copa no Brasil? Da Dilma Bolada? Do emprego que arrumei? Será que você ia estar dando suas aulas de inglês de novo? Como é que você teria se reinventado? Não deu tempo, flor. Não deu tempo. E aí me sinto tão pequena de sofrer com minhas reinvenções pequenas. A gente cresceu enquanto você não estava mais aqui. A gente continua crescendo. E me sinto absolutamente estúpida de reclamar das dores que isso, às vezes, traz quando penso no tanto de coisas que você teria que estar fazendo pra continuar crescendo se ainda estivesse aqui.

Obrigada por me lembrar, ao acaso, que

Dreams last for so long
Even after you’re gone

Que eu quero continuar sonhando muitos dos seus sonhos, ferzoca, e vou construir alguns novos também…

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sobre o chega de fiu-fiu

setembro 12, 2013
Quase nunca uso esse espaço pra isso, mas quando é importante, eu não me aguento.
Sobre o texto que circulou mais cedo como crítica ao Chega de Fiu-Fiu (desculpa, mas não sei mesmo seu nome, e isso não é um ataque pessoal, é só debate), o que gostaria de dizer é que ele seria perfeito se a gente vivesse em uma sociedade sem hierarquias, na qual o homem heterossexual não fosse o único a se sentir verdadeiramente livre para dirigir cantadas a desconhecidos. Um homem homossexual tem a liberdade de chamar um outro homem de gostoso, sim, mas vai ter sempre medo de morrer espancado logo mais, em uma esquina escura. A mulher vai ter sempre medo de ser chamada de vadia, porque sabe que isso pode ser lido como um convite para ser violentada em uma esquina escura. Infelizmente, ainda vivemos em uma sociedade machista e homofóbica. E se eu, individualmente, reajo às agressões verbais que sofro, isso não quer dizer que outra pessoa o faça. Dizer que o medo não deveria nos paralisar é banalizar a violência psicológica sofrida pelo outro. Eu tenho os meus traumas, que não preciso dividir com vocês todos, e também demorei pra pedir “por favor, não faça isso, me respeite”. Nosso espelho não deveria ser nunca o ponto de partida para pensar o mundo.
Há sim poderes em disputas, e há sim agência, ainda bem! – Afinal de contas, já mudamos bastante esse cenário, não? – O que não quer dizer que uma relação histórica de poder baseada na construção dos gêneros a partir dos sexos se diluiu nesses micropoderes que subvertem essa relação.Exceção não é regra, infelizmente. E mais do que estar presente, essa relação de poder entre os sexos se reforça com tantos outros marcadores de diferença, como costumamos dizer nas Ciências Sociais, como a sexualidade, a etnia e a classe social. Essas costuras hierárquicas, que todos tentamos implodir no nosso cotidiano, estão aí, oprimindo pessoas, trazendo sofrimento e dor.
O desejo faz parte de nossa humanidade, obviamente, mas expressá-lo de maneira livre e sem medo, como se pede, não é uma possibilidade real para a maioria das pessoas. Talvez seja na nossa roda de amigos, na nossa roda de Twitter, porque escolhemos pessoas com valores como os nossos para se estar por perto, mas não é assim no conjunto do mundo. Por isso considero desrespeitoso taxar a Campanha de moralista. Nunca li uma linha de texto determinando como o outro deve se comportar. Apenas incita ao fim das práticas de abuso e coerção. Os fluxogramas e insanidades argumentativas foram reações de reações à divulgação da pesquisa. Ela se tratava de um questionário elaborado como um ponto de partida para levantar o debate. Eu respondi: partiu de tipos-ideais de cantadas e perguntava às mulheres se elas se sentiam ofendidas com elas. Pode-se colocar diversas críticas à maneira como o questionário foi elaborado (partiu de categorias anteriores e não posteriores às respostas, por ex.), pois assim como toda e qualquer pesquisa, seja ela científica ou não, os métodos, a análise e os resultados encontrados vão ser sempre motivo de disputa. E ainda bem que é assim, senão a gente não precisaria mais se esforçar para pensar. Mas penso que moralizar o debate seria dizer que está proibida a paquera, está proibido o flerte, está proibido o coito, quando está mais do que cristalino que o se coloca em debate é que o assédio, o constrangimento e a violência verbal não deveriam ser socialmente aceitos com a justificativa de serem paquera. Não são!
Finalmente, já que estou falando disso, só queria dizer que o que mais me incomodou, na verdade foi a crítica à coleta de depoimentos, chamada de “depoimentismo”, para diminuir a técnica. Para mim, os depoimentos valem mais do que os números em si, porque é por meio das experiências e narrativas contadas que conseguimos ter um retrato mais fiel sobre o que as mulheres compreendem enquanto violência, assim como identificar os padrões nos quais ela ocorre e, a partir disso, construir ações para amenizar e, por que não, tentar erradicar os abusos. Recolher testemunhos e transformá-los em dados que embasam ações e políticas públicas é uma conquista das ciências sociais e é triste e ofensivo ler que colher depoimentos é uma ação vazia de política. Não é. Nunca foi. Mesmo que a ideia do Think Olga fosse parar por aqui – e eu sei que essa não é a ideia, mas entendo que seja melhor pensar que sim porque é mais fácil acusar do que construir – a campanha, com seus depoimentos doloridos e chocantes é política em si mesma não só por ter levantado esse debate, mas também por oferecer pontos de partida para eu, você e, por que não, para as autoridades públicas. O eco que ele ganhou na mídia e nas redes não apenas tocou algumas centenas ou milhares de pessoas, como também serve como medida para o poder público notar que há uma comoção em torno de um grave problema. Cabe não ao blog, mas a nós, que somos os atores sociais em cena, cobrar para que alguma coisa seja feita. O Chega de Fiu-Fiu deveria ser compreendido como mais um dos inúmeros pontos de partida dos quais deveríamos partir pra construir uma sociedade melhor, não como um ponto de chegada.
Um beijo e um apelo: por favor, não reduzam este debate à chacota.
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agosto 30, 2013

– e aí? deu certo?

– não, não deu.

– mas por que?

– não sei, mas ainda não deu.

– relaxa que uma hora dá.

– dá. uma hora dá, sim.

– mas de resto tá tudo bem? o que vc tem feito?

– muitas coisas, ando muito cansada.

– muito trabalho, né?

– às vezes, sim. muito trabalho.

– mas tá bom. se tá cansada é porque tá bom.

– sim, com certeza, deve estar.

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ela

junho 13, 2013

Querida,

A verdade é que ando meio tristonha, meio cabisbaixa, e você odiaria essa fase. Você não aguentava sofrimento auto-infligido, achava que a gente tinha que se preocupar com coisas mais práticas da vida, possíveis de se resolver. Quando você terminou o namoro, fiquei preocupada, mas fui te encontrar pra conversar e você me avisou que estava tudo bem, porque não estaria bem se tivesse continuado como estava. Seu jeito prático de ver a vida assustava muita gente. Tinha quem te achasse fria, tinha quem te achasse grossa, às vezes eu também achava. Mas achava fantástico ver você conseguir resolver alguns dos problemas que eu tinha como um quebra-cabeça de criança: pronto, tá vendo como é fácil? O bonito, mesmo, era ver que quando alguma coisa não se resolvia, você tinha toda a paciência que eu não tinha e me dizia pra esperar, porque uma hora as coisas mudam.

Você deve estar em algum lugar reclamando de que a gente seguiu a vida sem você, como quando você foi pra Assis. Mas sabe que não é verdade, porque eu te ligava sempre lá e penso em você sempre aqui. Nessa minha fase difícil, o que tem me acompanhado é um vidrinho de floral de bach, que você pediu pra sua mãe recomendar em períodos de extrema ansiedade e angústia. Desde janeiro encomendei um vidrinho aqui na farmácia ao lado de casa. Me perguntaram quem havia recomendado e eu disse que foi você. Juro. Tá lá o nome no vidrinho, flor. Cada gotinha é um “pára de história e viva”. Cada gotinha diária lembro de você.

Como você gostaria, tenho certeza, hoje é dia de te celebrar. Por isso, apesar do banzo todo que a gente sente, vou vestir um sorriso enquanto caminhar pela cidade. Hoje é seu dia e vai ser pra sempre. Porque amor, Fer, amor é coisa eterna.

Um beijo e saudades.

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comprando dignidade

junho 8, 2013

Dei sinal, subi no ônibus e consegui lugar para sentar. Na cadeira ao lado, dividida pelo corredor, um aparição. Só me lembro de ter visto alguém tão sujo assim na época do corte de cana na cidade da minha avó. A fuligem da queima entra por todos os lados, não sobra espaço no corpo intocado pelo carvão. O senhor, que parecia saído de uma mina de carvão ou da colheita da cana, também deu sinal, pagou e sentou. E ele sorria. Estava muito feliz de ter tomado a condução por seus próprios meios, sem ter que pedir carona, sem ter que entrar pelos fundos. Perguntou à cobradora se ela conhecia onde ficava o ponto que ele gostaria de descer. Ela disse que sim, que lhe avisaria, ele podia ficar tranquilo. “Poxa, vocês são todos muito gentis! Muito, muito gentis”, disse, olhando para a cobradora e para o rapaz sentado ao seu lado, que não se levantou como ato contínuo quando ele se sentou.

Uma lágrima desceu em seu rosto, enquanto sorria e repetia essas palavras. Como usava uma bengala, perguntou se o motorista poderia esperar ele descer quando o ônibus parasse. “Claro que sim”, respondeu a cobradora. “Nunca ninguém me tratou assim. Nunca, nunca”, repetia, entre sorrisos e lágrimas. O ônibus parou e ele foi andando lentamente para a porta dos fundos. Parecia não querer ir embora daquele sonho. Fiquei olhando pela janela, acompanhando seus primeiros passos fora de todo o conforto e gentileza que havia recebido em toda a sua vida de mendingo. Ao colocar os dois pés pra fora, a multidão que aguardava na plataforma de embarque se afastou, ele foi pedir orientação para alguns transeuntes, mas ninguém sequer o ouvia. Seu sorriso foi embora. Custou R$3,20 e algumas quadras.

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árvores

abril 16, 2013

De onde estou agora só vejo sombras, mas o sol coroa minha cabeça vez em quando e me aqueço, e paro e sento e suspiro. e agora que a retina acostumou com a pouca luz, aprecio, finalmente, a beleza da floresta.

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refazenda

março 6, 2013

tanta gente sonha em PÁ ter uma oportunidade para se refazer, quando tudo o que eu queria era uma trajetória linear. não vista de fora, mas vista de dentro. não vista do futuro, do longo termo, mas do presente, do curto prazo. porque eu estou vivendo agora, né? talvez linear nem seja a melhor palavra. ininterrupta. aí sim. ininterrupta. porque por mais encantadores que sejam os pontos de respiro que a vida nos oferece pra gente recomeçar, eu não acho muito fácil viver de ponto e vírgula. talvez depois eu aprecie. agora não.