Posts Tagged ‘religião’

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tucanando o espaço público

julho 2, 2009

Barcelona e marseille setembro de 2008 795

(foto minha, de uma calçada de Marseille-FR)

Decidiu-se por decreto que o espaço público é neutro. E os argumentos sempre são técnicos: não pode ter parada gay na avenida paulista porque o espaço é inadequado. Então, que se enfeude os manifestantes em um estádio de futebol. Quem escolher ver, que vá. Liberdade de expressão, só da porta pra dentro.

Pensou na Fifa? Pois é, essa discussão da comemoração dos jogadores brasileiros está atingindo níveis sarkozynianos insuportáveis. O argumento, técnico, é que os jogadores são uma vitrine muito influente e que, por isso, não podem se manifestar durante o jogo. Agora, estão querendo vetar também o pós-jogo. Além disso, dizem, esporte não se confunde com política nem religião. Hipocrisia pura. Desde quando a Fifa não faz política? Desde quando técnica se separa de política? Desde quando religião se separa de política?

(Não vou nem apelar para o argumento preguiçoso e sem nipe de que propaganda da Nike pode, mesmo que ela explore as criancinhas chinesas na manufatura dos seus sapatos. Passemos.)

O que me incomoda nessa discussão é o argumento da neutralidade do espaço público. A regulamentação das manifestações é algo com o que deveríamos nos preocupar. Ser evangélico, católico ou muçulmano, não é algo separado de ser kaká, lúcio ou sei lá quem. Se eles acreditam que Deus ou Alá os ajudou a ganhar aquela competição, nada mais justo que agradeçam da maneira que acharem que devem. Eles não estão doutrinando ninguém.

Nada mais justo, também, que os atletas manifestem seu desconforto com a situação política de seu país, por exemplo. Não há lugar de maior visibilidade do que o pódio para cerrar os pulsos e dizer “racismo não!”. Mas só pode o que é autorizado, acordado, regulamentado, previsto. Como se um atleta pudesse ser separado da experiência de vida que ele carrega.

Deus que me livre de viver em um mundo higienizado ao ponto de alguém ser proibido de agradecer aos céus pela graça que considera que recebeu. Esconder a religião e a política dentro de casa só faz aumentar a intolerância e a incompreensão daquilo que a gente não conhece. Só me falta, agora, quererem proibir os pregadores da praça da Sé. Delírio, só tem quem defende a neutralidade. O espaço público é um espaço de formação, de embate de ideias, de livre expressão. Deve ser preservado, às custas de a gente só poder pensar e fazer aquilo que já está previsto.

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Era uma vez, em São Benedito das Areias

abril 15, 2009

“Feche a janela e a porta e apague a luz para os espíritos não entrarem. Fique em silêncio, pecador. Nessa casa tem um pecador.”

Foram essas frases musicadas que minha avó ouviu durante a semana santa. Um grupo de nove homens saiu do cemitério trajado de roxo, em fila indiana, cantarolando isso no meio da noite. Passaram em todas as casas do arraial sem olhar para trás, senão os espíritos os seguiriam. Não podiam ser vistos por ninguém, senão os espíritos entraríam em suas casas. No pé da janela de cada casa, entoavam essa canção com voz rouca e tremulada. Emendavam algumas ave-marias e pais-nossos e tocavam a caminhada. Na sexta-feira santa terminaram o percurso no lugar em que começaram: o cemitério. No dia em que recebeu a visita desses homens vestidos de roxo, vovó apagou as luzes, fechou as portas e janelas, rezou as ave-marias e pais-nossos e achou graça de eu dizer que morreria de medo. Da próxima vez, quero estar lá para documentar.