Archive for junho \13\UTC 2013

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ela

junho 13, 2013

Querida,

A verdade é que ando meio tristonha, meio cabisbaixa, e você odiaria essa fase. Você não aguentava sofrimento auto-infligido, achava que a gente tinha que se preocupar com coisas mais práticas da vida, possíveis de se resolver. Quando você terminou o namoro, fiquei preocupada, mas fui te encontrar pra conversar e você me avisou que estava tudo bem, porque não estaria bem se tivesse continuado como estava. Seu jeito prático de ver a vida assustava muita gente. Tinha quem te achasse fria, tinha quem te achasse grossa, às vezes eu também achava. Mas achava fantástico ver você conseguir resolver alguns dos problemas que eu tinha como um quebra-cabeça de criança: pronto, tá vendo como é fácil? O bonito, mesmo, era ver que quando alguma coisa não se resolvia, você tinha toda a paciência que eu não tinha e me dizia pra esperar, porque uma hora as coisas mudam.

Você deve estar em algum lugar reclamando de que a gente seguiu a vida sem você, como quando você foi pra Assis. Mas sabe que não é verdade, porque eu te ligava sempre lá e penso em você sempre aqui. Nessa minha fase difícil, o que tem me acompanhado é um vidrinho de floral de bach, que você pediu pra sua mãe recomendar em períodos de extrema ansiedade e angústia. Desde janeiro encomendei um vidrinho aqui na farmácia ao lado de casa. Me perguntaram quem havia recomendado e eu disse que foi você. Juro. Tá lá o nome no vidrinho, flor. Cada gotinha é um “pára de história e viva”. Cada gotinha diária lembro de você.

Como você gostaria, tenho certeza, hoje é dia de te celebrar. Por isso, apesar do banzo todo que a gente sente, vou vestir um sorriso enquanto caminhar pela cidade. Hoje é seu dia e vai ser pra sempre. Porque amor, Fer, amor é coisa eterna.

Um beijo e saudades.

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comprando dignidade

junho 8, 2013

Dei sinal, subi no ônibus e consegui lugar para sentar. Na cadeira ao lado, dividida pelo corredor, um aparição. Só me lembro de ter visto alguém tão sujo assim na época do corte de cana na cidade da minha avó. A fuligem da queima entra por todos os lados, não sobra espaço no corpo intocado pelo carvão. O senhor, que parecia saído de uma mina de carvão ou da colheita da cana, também deu sinal, pagou e sentou. E ele sorria. Estava muito feliz de ter tomado a condução por seus próprios meios, sem ter que pedir carona, sem ter que entrar pelos fundos. Perguntou à cobradora se ela conhecia onde ficava o ponto que ele gostaria de descer. Ela disse que sim, que lhe avisaria, ele podia ficar tranquilo. “Poxa, vocês são todos muito gentis! Muito, muito gentis”, disse, olhando para a cobradora e para o rapaz sentado ao seu lado, que não se levantou como ato contínuo quando ele se sentou.

Uma lágrima desceu em seu rosto, enquanto sorria e repetia essas palavras. Como usava uma bengala, perguntou se o motorista poderia esperar ele descer quando o ônibus parasse. “Claro que sim”, respondeu a cobradora. “Nunca ninguém me tratou assim. Nunca, nunca”, repetia, entre sorrisos e lágrimas. O ônibus parou e ele foi andando lentamente para a porta dos fundos. Parecia não querer ir embora daquele sonho. Fiquei olhando pela janela, acompanhando seus primeiros passos fora de todo o conforto e gentileza que havia recebido em toda a sua vida de mendingo. Ao colocar os dois pés pra fora, a multidão que aguardava na plataforma de embarque se afastou, ele foi pedir orientação para alguns transeuntes, mas ninguém sequer o ouvia. Seu sorriso foi embora. Custou R$3,20 e algumas quadras.