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Norma, a Amélia dos tempos modernos

outubro 11, 2009

Nunca fui feminista militante, assim como nunca fui militante de nada só pra contrariar o óbvio – que é estudar ciências sociais e se vestir de bandeiras. Isso não quer dizer, no entanto, que eu compartilhe da mentalidade medíocre que reifica, dia-a-dia, a subordinação das mulheres na nossa sociedade.

Cresci ouvindo que eu deveria ser independente e ter uma profissão – conquistas com as qais minha mãe sonhou, mas não conseguiu alcançar – e  tive muitos exemplos de rupturas dessas relações hierárquicas de gênero. Desde criança sabia que era possível viver em um mundo no qual pais e mães não precisavam ser o cara que dá os presentes e a moça que lava as roupas e faz comida. Uma pena que eu não soubesse, na época, que existia vida para além do lar heterossexual. Prefiro a morte a seguir a fórmula pronta da divisão sexual do trabalho, das hierarquias de gênero e sexualidades, da dupla jornada.

Mas por que mesmo esse desabafo todo?

Hoje, assisti o final do seriado Norma, que acreditava ter uma proposta legal.

Ingenuidade.

A Norma conseguiu uma promoção e começou a ter problemas em administrar sua vida de dona-de-casa e de mãe-de-família com o trabalho – agora, supostamente mais pesado (desculpem os apostos, mas não me aguento: como se a dupla jornada que ela levava antes da promoção não fosse trabalho demais!!!). Ela, então, pediu dicas para a plateia de como conciliar o cuidado da casa e da família com o trabalho. A plateia reagiu e a trama continuou, seguindo as dicas dos analfabetos de gênero. O seriado se encerrou com uma lição de moral inacreditável. Norma diz: “Viu como é possível ser chefe, bem-sucedida e continuar cuidando da casa e da família?”.

Tucanaram a queima de sutiãs!

Não é possível que as pessoas continuem acreditando que é da natureza da mulher essa coisa toda do cuidado. Não é porque um corpo biológico gera descendentes que vai baixar ali um instinto, como um raio que cai dos céus, que torna a mulher biologicamente mais apta a cuidar dos filhos e do lar enquanto o homem prove de alimentos e equipamentos eletrônicos a casa que ele comprou. A Norma faz o pior dos discursos porque esconde essa relação de desigualdade e continua a naturalizar o papel da mulher na sociedade. É nojento, pavoroso, e de um conservadorismo estúpido. A Norma é a Amélia dos tempos modernos. Ela se adapta à condição de a mulher ocupar postos de mercado no trabalho e engana com um discurso pretenso feminista – ao dizer que as mulheres devem exigir salários iguais aos dos homens, por exemplo.

As feministas não queimaram o sutiã pra poder ganhar R$ 10 mil e pagar uma empregada doméstica (também mulher. reflitam). Alguém precisa ensinar para o roteirista descuidado, que eu prefiro não saber quem é, que eqüidade de gênero não se mede pela conta bancária.

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todo dia ela faz tudo sempre igual…

julho 8, 2009

“Being a woman in Iran is hard, and working as a woman photographer is even harder”.

Shadi Ghadirian, 35, trabalha e vive em Teerã como fotógrafa. No Irã, o exercício da profissão é submetido a um rígido código e sua não obediência custa o expurgo da vida profissional. Shadi não pode registrar, por exemplo, o cabelo das mulheres, nem mostrar mulheres em contato físico com homens. Por ser mulher, também não pode viajar sozinha, muito menos hospedar-se em um quarto de hotel desacompanhada do marido.

Em entrevista ao Telegraph, em 2007, conta como driblou as regras pra fazer sua arte política feminista. As fotos abaixo são da série “Like Everyday”, em que ela registrou os tradicionais véus acompanhados de objetos domésticos. O registro é o da dupla submissão: à sharia e aos homens.

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Fotos da Saatchi Gallery. mais, na Bravo! deste mês.