Posts Tagged ‘narrativas’

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comprando dignidade

junho 8, 2013

Dei sinal, subi no ônibus e consegui lugar para sentar. Na cadeira ao lado, dividida pelo corredor, um aparição. Só me lembro de ter visto alguém tão sujo assim na época do corte de cana na cidade da minha avó. A fuligem da queima entra por todos os lados, não sobra espaço no corpo intocado pelo carvão. O senhor, que parecia saído de uma mina de carvão ou da colheita da cana, também deu sinal, pagou e sentou. E ele sorria. Estava muito feliz de ter tomado a condução por seus próprios meios, sem ter que pedir carona, sem ter que entrar pelos fundos. Perguntou à cobradora se ela conhecia onde ficava o ponto que ele gostaria de descer. Ela disse que sim, que lhe avisaria, ele podia ficar tranquilo. “Poxa, vocês são todos muito gentis! Muito, muito gentis”, disse, olhando para a cobradora e para o rapaz sentado ao seu lado, que não se levantou como ato contínuo quando ele se sentou.

Uma lágrima desceu em seu rosto, enquanto sorria e repetia essas palavras. Como usava uma bengala, perguntou se o motorista poderia esperar ele descer quando o ônibus parasse. “Claro que sim”, respondeu a cobradora. “Nunca ninguém me tratou assim. Nunca, nunca”, repetia, entre sorrisos e lágrimas. O ônibus parou e ele foi andando lentamente para a porta dos fundos. Parecia não querer ir embora daquele sonho. Fiquei olhando pela janela, acompanhando seus primeiros passos fora de todo o conforto e gentileza que havia recebido em toda a sua vida de mendingo. Ao colocar os dois pés pra fora, a multidão que aguardava na plataforma de embarque se afastou, ele foi pedir orientação para alguns transeuntes, mas ninguém sequer o ouvia. Seu sorriso foi embora. Custou R$3,20 e algumas quadras.

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Julian, o russo

março 29, 2012

“Você poderia, por favor, passar esse leite e esse chocolate para mim?”

O pedido veio de um homem grisalho, barbudo, com a pele bastante judiada do sol. Ele usava roupas bastante surradas e falava com um sotaque carregado, que eu mal percebi pela surpresa da intromissão.

Estava na fila do caixa de um mercado aqui pertinho de casa e já era noite. Pelo menos, fazia-se noite. Em São Paulo, como os paulistanos sabem, as ruas são porcamente iluminadas. Mesmo em um bairro de classe média, como o meu. Passei as compras dele com prazer, porque comida e água, ensinou mamãe, não se nega a ninguém. Na saída do caixa, enquanto começava a passar as minha compras – passei as dele primeiro -, ele me agradeceu com um “Thanks”. Ao que minha imaginação chegou à estratosfera e voltou em cinco segundos. “Be welcome”.

Sorri e suspendi o contato facial, para mostrar que nossa história terminava ali. Por mais que ele me pusesse curiosa, eu sou menina e tenho medo, muito medo da misoginia traduzida em atos que anda à solta em noites escuras de verão. Ele sumiu, eu suspirei aliviada e segui a vida.

Uma quadra depois, me senti perseguida. O fudeu mental foi seguido de uma astúcia nunca antes produzida em tal velocidade: parei bem em frente a um bar e o encarei. “Pois não?”. O que se seguiu, crianças, é um mistério de aguinaldo silva que jamais vou conseguir resolver.

Em inglês, ele disse que era um imigrante russo em busca do seu filho, que havia sido sequestrado por um policial civil brasileiro em viagem à Rússia. Hein? Ele estava há cinco anos no Brasil, entre Brasília e São Paulo, tentando retomar contato com o menino, mas esse cara era muito perigoso e estava, agora, tentando acabar com a vida dele. Não riam, mas a riqueza de detalhes oferecida era tamanha que me comovi, ainda que descrente. “Mas você não procurou a Justiça? A imprensa? Você tem provas disso?”. Ele disse ter, mas disse que elas estavam nos autos do processo ao qual ele não conseguia mais ter acesso porque o tal policial tinha muitos contatos e conseguiu parar com o andamento do processo. “They are a gang. A dangerous one”.

Seguimos por pelo menos meia hora nessa contação de histórias. Ele, um ex-imigrante russo nos EUA que havia deixado seu filho com uma prima que havia vendido a criança a um policial brasileiro. E eu, uma menina de coração puro que não duvidava da dor de um pai que só queria ver o filho pela última vez e contar a ele toda a verdade.

“Você tem algum contato? Posso pensar em alguém que possa te ajudar. Tenho amigos no MRE e na imprensa e se você tiver provas, eles poderiam investigar sua história”. Ele sacou o celular, procurou o número e me passou. Seu nome? Posso anotar seu nome? “Julian. Julian F&¨*&%&”. Rrrrú-lhiãm. Assim, cantado.

Esperei ele se afastar enquanto fiquei imóvel pensando em seu único pedido de ajuda, a mim dirigido (afora o leite e o chocolate, claro): um par de lentes de contato.

A gente nunca mais se falou.

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fim de semana não combina com transporte público?

julho 17, 2011

Já era quase meia-noite e ela ainda esperava o trem. Foram 38 minutos contados no relógio. Era sábado e ela lamentava ter se esquecido do final de semana, quando o governo do estado de São Paulo supõe que as pessoas descansem, como eles, em suas casas. Ela não: voltava de um turno dobrado de trabalho. Dobrado por “opção”, porque ela precisa do dinheiro e porque está grávida de seis meses e quer acumular horas para passar mais tempo com os filhos. São trigêmeos e ela já sente dificuldade para respirar. “Eles pressionam minhas vértebras”, diz. Eu não sei como isso funciona, mas tenho certeza de que a dor nas costas deve ser infernal. Mas ela trabalha em pé todos os dias, com exceção de domingo – até as 14h, quando tem que dar um jeito na casa e cuidar dos outros filhos, gêmeos. E ela me conta isso enquanto espera, em pé, a troca de mais um trem. Mais 20 minutos estimados, porque não uso relógio. Mas ela deve saber bem quanto tempo passou. Foi tempo suficiente para saber que se ela chegasse até quase o final da linha – e estávamos no começo – ela não chegaria a tempo de pegar o metrô para o Capão Redondo, seu destino final. Também foi tempo suficiente para ela contar que é sempre assim e que a culpa foi dela, que se esqueceu que de final de semana você espera uns 40 minutos para o trem passar – e deveria ter pego o fretado da empresa para pegar um ônibus, apesar da imensa demora que ele levaria pra chegar ao destino final e dos sacolejos desaconselháveis para a gravidez delicada.

Mas ela é forte. É PM e chefe de segurança de um shopping de uma bolha de ricos. Já levou facadas, mas nunca tiros. E se recusa a andar armada quando não está trabalhando porque é perigoso demais. Também não usa farda. É perigoso demais. Ela, que não se comove com corpos cortados ao meio em tentativas de suicídio no metrô ou cabeças de motoqueiros decepadas em acidentes nas marginais, diz que só se emociona com o nascimento de crianças. “Aí eu choro”. Ela decide saltar do trem em uma estação que a permita pegar um ônibus que a leve o mais próximo possível da sua casa. Ela atravessa uma avenida larga e movimentada sem usar a passarela porque não tem fôlego para encarar as escadas. É quase 1h e ela andou cerca de 20 km em quase duas horas. Era um sábado à noite. Sem trânsito. Obrigada, São Paulo.

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o pipoqueiro da rua augusta

fevereiro 16, 2011

duas xícaras de milho de pipoca, duas espirradas de óleo Liza, uma colher de sopa de manteiga aviação e uma pitada de sal. essa é a receita que ninguém nunca se deu o trabalho de perguntar ao pipoqueiro do espaço unibanco. nem eu. também não lhe perguntei o nome, que era pra não estragar o meu papel de espectadora daquela cena. ele, a cada 10 minutos, abria a tampa do carrinho, retirava 3 pipocas salgadas e lançava na calçada da rua augusta. quase acertou um passante, que olhou indignado e com cara de “que porquice é essa?”, mas o pipoqueiro aprendeu a ser blasé e nem ligou.

eu sorri.

ele emporcalha a rua com o perfume das pipocas, que é pra atrair clientes. em quinze minutos parada ao seu lado, vendeu um saquinho. e eu não quis saber seu nome, que era pra não estragar a ficção. porque o imaginei fazendo pipocas naquele carrinho, para aquelas salas de cinema, com aquele capricho, há anos. imaginei ele envelhecendo na rua augusta e contando o tempo pelos cartazes dos filmes (“meu neto nasceu quando estreou Amelie Poulain”). imaginei que ele, talvez, ame a sétima arte e por isso escolheu aquele ponto, mesmo sem nunca ter assistido a filme algum ali. quem souber a história real que não me conte. hoje envelheci dez anos na alma só de ter chamado essa história de ficção. e de ter certeza de que ele é, provavelmente, um aposentado que complementa a renda vendendo pipoca. e que seus netos não frequentam aquelas salas de cinema por vergonha – ou falta de grana. e que todo sábado à noite, ele ronca no sofá de casa assistindo seu programa de TV preferido: zorra total. e o pior eu nem contei pra vocês. tenho certeza de que esse senhor de camisa branca meio aberta e testa sempre suada, na verdade, odeia pipoca.

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"last night I dreamt that somebody loved me"

novembro 21, 2009

Tito tem 47 anos e poucos fios de cabelo brancos. Para ir ao trabalho ele desce do décimo andar de um prédio antigo, localizado quase em frente a uma praça cheia de árvores peludas. Dá seis passos para sair pela porta do edifício, vira o corpo à direita, anda mais seis passos, entra em outro edifício, sobre até o sexto andar e se senta em uma mesa com vista para a área comum de um hostel e para a praça de árvores peludas. Ali, naquela cadeira, ele observa o movimento das pessoas entrando e saindo de seus quartos e calcula a melhor hora para descer os seis andares e traçar os passos da sua segunda rotina.

De segunda a segunda, por volta 20h, Tito deixa de ser o observador para se tornar um dos personagens da área comum. Ele chega, se senta, lê um jornal ou um livro, e desaparece à percepção dos hóspedes no entra e sai de juventude pela porta principal. É apenas mais um hóspede.

Tito não é casado e não tem filhos. Tampouco tem família – dessas consangüineas, tradicionais. Suas relações são um transitar sem fim de moças bem-vestidas e perfumadas procurando “a balada” da noite, uma desenvoltura semi-estruturada na roda de assuntos com os comuns da sala comum e, quando descoberto, um explicar sem fim dos costumes, tradições e marcas de caráter da população da cidade onde mora.

Os passantes são cruéis. Cedem-lhe a conversa, mas mal lhe perguntam o nome. Ele sabe os dos que foram, os dos que estão. Suga-lhes todas as experiências possíveis de vida. As aventuras em terras estranhas, de sotaques estranhos. Os amores vividos em suas mais diversas formas. Os discursos libertários. Os dissabores das vidas errantes. A vida interessante e intensa que muito bem pode ter sido inventada, de tão pulsante. Ele se emociona, se envolve, ri, chora e suga dos transeuntes da sala comum toda a energia que eles traduzem no discurso mochileiro.

Os hóspedes voltam para casa e se despedem rápido do exercício de desapego e independência que pregaram a Tito. Tito volta para a casa, liga a TV e dorme embalado por algum filme trash da madrugada. Ele tem pavor da solidão.

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tipos de namorado

novembro 3, 2009

Mais cinismo no “Tales of mere existence”, no AgentXPQ

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arnaldo, me dá um abraço?

junho 30, 2009

Em janeiro de 2007, mandei o e-mail mais sem contexto de toda a minha vida para um grupo de amigos meus: “por favor, não usem LSD!”. Ninguém entendeu nada, lógico, mas eu estava realmente preocupada que alguém entrasse em uma viagem da qual nunca mais conseguisse voltar.

Tinha terminado de ler, naquele mesmo dia, a biografia não-autorizada dos Mutantes (“A Divina Comédia dos Mutantes”, do Carlos Calado), e esse era o meu diagnóstico sobre o fim da banda e a decadência em que Arnaldo Baptista entrou. Uma colega nossa tinha acabado de passar por essa experiência – a da viagem nunca mais interrompida após o uso do ácido – e fiquei desolada com a viagem sem volta do cara mais genial da tropicália. Apesar de, ou até por causa disso, estava crazy in love pelo Arnaldo Baptista. Queria pegar o primeiro ônibus pra Juíz de Fora, baixar na casa dele e dizer: “Dê cá um abraço!”. Não o fiz (ufa!), mas confesso que me encantei com os desenhos que ele faz como forma de terapia e acabei comprando um. Não me arrependo.
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Neste final de semana, ao ver Loki, não pude deixar de me emocionar mais uma vez com sua história e quase mandei outro e-mail coletivo – mas, dessa vez, com outros dizeres “não tenham medo de viver!”. Saí da sala de cinema a ponto de comprar mais um desenho do Arnaldo – um jeitinho que encontrei de dar o tão desejado abraço.

O que me comove em sua história é a intensidade com a qual ele sempre procurou viver. Sempre adimirei as pessoas que dão um salto no escuro, confiando que não há motivos pra ter medo do desconhecido. A história dele é a história de um romântico incondicional, que, como tal, experimentou tanto os gozos quanto as dores do mundo num mergulho vertical. Arriscou-se de peito aberto. Em tempos em que a tendência é a de se proteger da vida, suas mazelas e benésses, não posso deixar de achar isso bonito e admirável. Arnaldo Baptista tentou ser feliz de todas as maneiras.