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erosão

novembro 29, 2012

ela tinha um jeito simples de resolver suas dores. um quarto escuro e indierock. sofria porque podia tanto ser tudo, mas faltava tanto tempo…

agora já tinha passado tanto tempo e ela nem saberia dizer se havia conseguido ser alguma parte daquele tudo. aquela outra da vida lá atrás sorriria orgulhosa daquele seu futuro? como posso dizer que sim se, aos 15, nossos ídolos são planícies sem deformações?

ela, jovem, estava certa de ansiar ser mais. mas ingênua, não poderia saber o vazio que se cria quando se chega aqui e se constata ter vivido tantos sonhos quantos eram possíveis de serem sonhados. e ter tido tantos outros bloqueados por razões que nem sempre nos cabe controlar. e foi tudo tão fácil. ou pareceu tudo tão fácil. ou foi tudo tão natural… ingênua, não sabia o quanto machucaria ter que inventar novos traçados para continuar o desafio de ser tudo o que se pode querer ser. porque agora a vida não se resolve com quarto escuro e indierock. e o que se quer, se agora não nos falta tempo para conseguir?

e ainda há mais: melancolicamente, já descobrimos que os ídolos, como nós mesmos, são pura vossoroca.

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de primaveras

outubro 11, 2012

Há mais de dois anos, enquanto fazia meu intercâmbio doutoral, aguardava o ônibus que me levava do campus da The Open University para a estação de trem de Milton Keynes. Eram os primeiros dias de primavera e no caminho de ida todos os canteiros da cidade mais simpática do interior da Inglaterra já estavam carregados de tulipas coloridas. Ainda fazia muito frio, mas as flores me trouxeram uma esperança inexplicável: era possível superar a frieza do cinza.

O espetáculo mais bonito ainda me aguardava. E ele aconteceu nesse fim de tarde em que eu esperava o ônibus que me levaria de volta ao trem que partiria para London Euston. De repente, o vento frio e suave ficou mais forte e me vi envolta em uma tempestade de sementes de dente de leão. Desmunida de câmera, sentei e apreciei cada segundo daquela beleza. Minha alma sorriu. Dentro do ônibus, vi que os campos da cidade – que é cheia de zonas rurais e parques enormes – elevavam aquela chuva de dente de leão a uma potência ainda maior. Era uma nevasca de pólen, que fertilizava mais vida em territórios vizinhos.

Porque a vida é feita dessas pequenas descobertas, dessas pequenas revelações. E porque a beleza está onde a gente menos espera, como no ponto de ônibus. Só pra gente não se esquecer de nada disso, porque sem encantamentos, a vida não se motiva a seguir adiante…

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agosto 17, 2012

eu digo que sou agnóstica. mas não acredito muito nisso. não acredito porque não é uma convicção, dessas que faz o coração bater mais forte quando contestam. também não é nada que eu tenha passado anos estudando para chegar a alguma conclusão. na verdade não é algo que me preocupa. eu não penso nisso e isso não me consome.

a verdade é que eu devo ser um pouco mística – meio boho, eu sei, mas eu já frequentei muita feira hippie. eu tenho certeza de que eu fico pra baixo, doente e triste quando tem alguém me desejando algum mal – ou simplesmente zombando de mim. e eu sinto que quanto mais penso em coisas ruins, mais elas acontecem. é um lance de energia, gente. mas não que eu lave cristais na lua cheia ou faça meditação pra entrar em alfa – já estive lá, já voltei.

o fato é que em alguns momentos da vida eu sinto vontade de rezar. talvez porque tenham me ensinado que esse é o jeito de agradecer ao universo, quando entro em contato com alguma história triste, solto um “obrigada pela vida que eu tenho” assim, desendereçado. porque apesar do salário que não chega ao fim do mês, eu tenho tudo o que eu sempre quis, mas só entendo isso quando saio do mercado e deixo as minhas compras quase todas com uma família de moradores de rua. “deus te abençoe”, eles me disseram. “deus abençoe vocês”. e pensei cá comigo que seja lá quem for o mestre do universo, seja lá qual for essa fonte de energia, eles já gastaram um bom tempo de trabalho comigo. podem redistribuir minha parte por aí…

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fervai

junho 13, 2012

querida,

eu não me esqueço, apesar de já não me lembrar tão bem de muitas coisas. hoje será sempre hoje e santo antônio sempre me fará chorar um pouquinho – e de saudade. acho que você ia gostar de saber que o nome que você escolheu para a sua filha, Phillipa, agora está na moda por conta da irmã da princesa. você diria que sempre foi phyna e que, por isso mesmo, sempre soube aquilo que pertencia ou não à realeza. você também gostaria de saber que aquele colar que você ganhou no beco de Salvador ainda está comigo e que guardo ele como um amuleto porque apesar de horroroso – no melhor estilo “de quem é esse reggae” – me trouxe sempre muita sorte. e sempre que eu sinto sua falta, olho pra ele e penso no tanto de carinho que ele carrega. você tirou da bolsa como um départ gift porque queria que eu levasse alguma coisa que me fizesse lembrar de você. como se eu pudesse te esquecer…

hoje é a segunda festa de aniversário sua que eu perco e ainda sinto culpa de ter estado tão longe quando o que você mais precisou foi de uma companhia para ver qualquer bobagem na TV e rir um pouquinho. mas gosto de pensar que você me esperou pra vivermos uma última aventura – ainda que no sem parar do shopping -, e gosto mais ainda de pensar que você me espera para vivermos muitas outras.

um beijo com trilha sonora dos “the cranberries”, pra lembrar aquele seu aniversário em que te dei 3 cds deles em cima da carroceria da pickup do seu irmão, voltando de carona de uma festa junina da nossa escola de infância – apesar de já estarmos bem grandinhas. e com sabor de cosmopolitan, como brindamos naquele ano em que, bem lembrou momô, você levou seu próprio bolo e suas próprias velinhas… hoje eu apago elas aqui, porque vou sempre ter motivos pra comemorar a vida que vivi com você, querida…

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som

maio 25, 2012

Talvez seja a reforma que já fez aniversário e que tenha na força do ruído da sua broca meu despertador diário – segunda à sábado, das 7h às 17h. E digo talvez porque, à parte no meu ninho de trabalho, o silêncio sempre me perturbou.

Hoje, enquanto caminhava em uma rua paralela à uma das mais movimentadas avenidas da cidade, me deparei com o mais absoluto e completo silêncio. O semáforo fechou, os carros pararam, os passarinhos não cantaram, ninguém gritou. Parei. Contemplei. Sorri. E me lembro de ter me sentido grata por ter vivido esses segundos de vazio, o mais absoluto vazio.

Não há beleza maior do que aquela contida na raridade. Porque São Paulo, tão cheia de tudo, me fez aprender a amar o nada.

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Reticências

abril 16, 2012
“Arrumar a vida, pôr prateleiras na vontade e na ação.
Quero fazer isto agora, como sempre quis, com o mesmo resultado;
Mas que bom ter o propósito claro, firme só na clareza, de fazer qualquer coisa!

Vou fazer as malas para o Definitivo,
Organizar Álvaro de Campos,
E amanhã ficar na mesma coisa que antes de ontem — um antes de ontem que é sempre…
Sorrio do conhecimento antecipado da coisa-nenhuma que serei.
Sorrio ao menos; sempre é alguma coisa o sorrir…
Produtos românticos, nós todos…
E se não fôssemos produtos românticos, se calhar não seríamos nada.
Assim se faz a literatura…
Santos Deuses, assim até se faz a vida!

Os outros também são românticos,
Os outros também não realizam nada, e são ricos e pobres,
Os outros também levam a vida a olhar para as malas a arrumar,
Os outros também dormem ao lado dos papéis meio compostos,
Os outros também são eu.
Vendedeira da rua cantando o teu pregão como um hino inconsciente,
Rodinha dentada na relojoaria da economia política,
Mãe, presente ou futura, de mortos no descascar dos Impérios,
A tua voz chega-me como uma chamada a parte nenhuma, como o silêncio da vida…
Olho dos papéis que estou pensando em arrumar para a janela,
Por onde não vi a vendedeira que ouvi por ela,
E o meu sorriso, que ainda não acabara, inclui uma crítica metafisica.
Descri de todos os deuses diante de uma secretária por arrumar,
Fitei de frente todos os destinos pela distração de ouvir apregoando,
E o meu cansaço é um barco velho que apodrece na praia deserta,
E com esta imagem de qualquer outro poeta fecho a secretária e o poema…
Como um deus, não arrumei nem uma coisa nem outra…”

Álvaro de Campos,

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Julian, o russo

março 29, 2012

“Você poderia, por favor, passar esse leite e esse chocolate para mim?”

O pedido veio de um homem grisalho, barbudo, com a pele bastante judiada do sol. Ele usava roupas bastante surradas e falava com um sotaque carregado, que eu mal percebi pela surpresa da intromissão.

Estava na fila do caixa de um mercado aqui pertinho de casa e já era noite. Pelo menos, fazia-se noite. Em São Paulo, como os paulistanos sabem, as ruas são porcamente iluminadas. Mesmo em um bairro de classe média, como o meu. Passei as compras dele com prazer, porque comida e água, ensinou mamãe, não se nega a ninguém. Na saída do caixa, enquanto começava a passar as minha compras – passei as dele primeiro -, ele me agradeceu com um “Thanks”. Ao que minha imaginação chegou à estratosfera e voltou em cinco segundos. “Be welcome”.

Sorri e suspendi o contato facial, para mostrar que nossa história terminava ali. Por mais que ele me pusesse curiosa, eu sou menina e tenho medo, muito medo da misoginia traduzida em atos que anda à solta em noites escuras de verão. Ele sumiu, eu suspirei aliviada e segui a vida.

Uma quadra depois, me senti perseguida. O fudeu mental foi seguido de uma astúcia nunca antes produzida em tal velocidade: parei bem em frente a um bar e o encarei. “Pois não?”. O que se seguiu, crianças, é um mistério de aguinaldo silva que jamais vou conseguir resolver.

Em inglês, ele disse que era um imigrante russo em busca do seu filho, que havia sido sequestrado por um policial civil brasileiro em viagem à Rússia. Hein? Ele estava há cinco anos no Brasil, entre Brasília e São Paulo, tentando retomar contato com o menino, mas esse cara era muito perigoso e estava, agora, tentando acabar com a vida dele. Não riam, mas a riqueza de detalhes oferecida era tamanha que me comovi, ainda que descrente. “Mas você não procurou a Justiça? A imprensa? Você tem provas disso?”. Ele disse ter, mas disse que elas estavam nos autos do processo ao qual ele não conseguia mais ter acesso porque o tal policial tinha muitos contatos e conseguiu parar com o andamento do processo. “They are a gang. A dangerous one”.

Seguimos por pelo menos meia hora nessa contação de histórias. Ele, um ex-imigrante russo nos EUA que havia deixado seu filho com uma prima que havia vendido a criança a um policial brasileiro. E eu, uma menina de coração puro que não duvidava da dor de um pai que só queria ver o filho pela última vez e contar a ele toda a verdade.

“Você tem algum contato? Posso pensar em alguém que possa te ajudar. Tenho amigos no MRE e na imprensa e se você tiver provas, eles poderiam investigar sua história”. Ele sacou o celular, procurou o número e me passou. Seu nome? Posso anotar seu nome? “Julian. Julian F&¨*&%&”. Rrrrú-lhiãm. Assim, cantado.

Esperei ele se afastar enquanto fiquei imóvel pensando em seu único pedido de ajuda, a mim dirigido (afora o leite e o chocolate, claro): um par de lentes de contato.

A gente nunca mais se falou.