Archive for março \29\UTC 2012

h1

Julian, o russo

março 29, 2012

“Você poderia, por favor, passar esse leite e esse chocolate para mim?”

O pedido veio de um homem grisalho, barbudo, com a pele bastante judiada do sol. Ele usava roupas bastante surradas e falava com um sotaque carregado, que eu mal percebi pela surpresa da intromissão.

Estava na fila do caixa de um mercado aqui pertinho de casa e já era noite. Pelo menos, fazia-se noite. Em São Paulo, como os paulistanos sabem, as ruas são porcamente iluminadas. Mesmo em um bairro de classe média, como o meu. Passei as compras dele com prazer, porque comida e água, ensinou mamãe, não se nega a ninguém. Na saída do caixa, enquanto começava a passar as minha compras – passei as dele primeiro -, ele me agradeceu com um “Thanks”. Ao que minha imaginação chegou à estratosfera e voltou em cinco segundos. “Be welcome”.

Sorri e suspendi o contato facial, para mostrar que nossa história terminava ali. Por mais que ele me pusesse curiosa, eu sou menina e tenho medo, muito medo da misoginia traduzida em atos que anda à solta em noites escuras de verão. Ele sumiu, eu suspirei aliviada e segui a vida.

Uma quadra depois, me senti perseguida. O fudeu mental foi seguido de uma astúcia nunca antes produzida em tal velocidade: parei bem em frente a um bar e o encarei. “Pois não?”. O que se seguiu, crianças, é um mistério de aguinaldo silva que jamais vou conseguir resolver.

Em inglês, ele disse que era um imigrante russo em busca do seu filho, que havia sido sequestrado por um policial civil brasileiro em viagem à Rússia. Hein? Ele estava há cinco anos no Brasil, entre Brasília e São Paulo, tentando retomar contato com o menino, mas esse cara era muito perigoso e estava, agora, tentando acabar com a vida dele. Não riam, mas a riqueza de detalhes oferecida era tamanha que me comovi, ainda que descrente. “Mas você não procurou a Justiça? A imprensa? Você tem provas disso?”. Ele disse ter, mas disse que elas estavam nos autos do processo ao qual ele não conseguia mais ter acesso porque o tal policial tinha muitos contatos e conseguiu parar com o andamento do processo. “They are a gang. A dangerous one”.

Seguimos por pelo menos meia hora nessa contação de histórias. Ele, um ex-imigrante russo nos EUA que havia deixado seu filho com uma prima que havia vendido a criança a um policial brasileiro. E eu, uma menina de coração puro que não duvidava da dor de um pai que só queria ver o filho pela última vez e contar a ele toda a verdade.

“Você tem algum contato? Posso pensar em alguém que possa te ajudar. Tenho amigos no MRE e na imprensa e se você tiver provas, eles poderiam investigar sua história”. Ele sacou o celular, procurou o número e me passou. Seu nome? Posso anotar seu nome? “Julian. Julian F&¨*&%&”. Rrrrú-lhiãm. Assim, cantado.

Esperei ele se afastar enquanto fiquei imóvel pensando em seu único pedido de ajuda, a mim dirigido (afora o leite e o chocolate, claro): um par de lentes de contato.

A gente nunca mais se falou.

h1

ideiafixa

março 26, 2012

do sempre genial, phD Comics

h1

back to 11

março 21, 2012

Desde quando me tornei ‘mocinha’ passei a me preocupar com minha aparência. Que roupinha vestir, que sapato usar, qual tiara com o frufru da Pakalolo combinar com o uniforme verde-musgo da escola. E daí pra quase anorexia. Cinco fucking years de dieta, de contagem de calorias, de sacrifícios extremos como “nada de coca-cola” e “nada de chocolate” por sei lá quantos meses e anos a troco de promessas – que deveriam ser pra emagrecer ou pro mocinho loirinho de olho claro metido a galã da escola se apaixonar por mim.
Até que um dia, depois de me flagrar cheirando um papel de chocolate, um ‘tio’ querido-mais-que-querido, que estava sofrendo os efeitos da última quimioterapia, me convenceu de que aquilo tudo era uma grande bobagem. Ele vivia seus últimos dias sem poder desfrutar dos sabores que mais apreciava e me senti envergonhada de forjar um sacrifício alimentar perante a ausência de doença que me impusesse restrições severas. E passei a me fartar, de maneira saudável, de todos os sabores possíveis.
Hoje, depois de todo esse aprendizado, fui parar em uma clínica estética. Depois de uma crise de imagem glútea, comprei um pacote de drenagem linfática, desses sites de compras coletivas, e resolvi testar a tecnologia exterminadora de celulites. Entrei, recebi a massagem relaxante e, ao fim da sessão, quando me sentia completamente bela e leve, recebi o severo diagnóstico de que o grau dos buracos das minhas pernas era alto demais pra ser tratado com a força das mãos. “Cellutec! 10 sessões na promoção, em 5X”. E eu voltei a ser a menina da crazy diet e quase me endividei pra voltar a ter a auto-estima roubada pelo julgamento estético. Back to 17. Em eterno looping…