Posts Tagged ‘politiquices’

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fim de semana não combina com transporte público?

julho 17, 2011

Já era quase meia-noite e ela ainda esperava o trem. Foram 38 minutos contados no relógio. Era sábado e ela lamentava ter se esquecido do final de semana, quando o governo do estado de São Paulo supõe que as pessoas descansem, como eles, em suas casas. Ela não: voltava de um turno dobrado de trabalho. Dobrado por “opção”, porque ela precisa do dinheiro e porque está grávida de seis meses e quer acumular horas para passar mais tempo com os filhos. São trigêmeos e ela já sente dificuldade para respirar. “Eles pressionam minhas vértebras”, diz. Eu não sei como isso funciona, mas tenho certeza de que a dor nas costas deve ser infernal. Mas ela trabalha em pé todos os dias, com exceção de domingo – até as 14h, quando tem que dar um jeito na casa e cuidar dos outros filhos, gêmeos. E ela me conta isso enquanto espera, em pé, a troca de mais um trem. Mais 20 minutos estimados, porque não uso relógio. Mas ela deve saber bem quanto tempo passou. Foi tempo suficiente para saber que se ela chegasse até quase o final da linha – e estávamos no começo – ela não chegaria a tempo de pegar o metrô para o Capão Redondo, seu destino final. Também foi tempo suficiente para ela contar que é sempre assim e que a culpa foi dela, que se esqueceu que de final de semana você espera uns 40 minutos para o trem passar – e deveria ter pego o fretado da empresa para pegar um ônibus, apesar da imensa demora que ele levaria pra chegar ao destino final e dos sacolejos desaconselháveis para a gravidez delicada.

Mas ela é forte. É PM e chefe de segurança de um shopping de uma bolha de ricos. Já levou facadas, mas nunca tiros. E se recusa a andar armada quando não está trabalhando porque é perigoso demais. Também não usa farda. É perigoso demais. Ela, que não se comove com corpos cortados ao meio em tentativas de suicídio no metrô ou cabeças de motoqueiros decepadas em acidentes nas marginais, diz que só se emociona com o nascimento de crianças. “Aí eu choro”. Ela decide saltar do trem em uma estação que a permita pegar um ônibus que a leve o mais próximo possível da sua casa. Ela atravessa uma avenida larga e movimentada sem usar a passarela porque não tem fôlego para encarar as escadas. É quase 1h e ela andou cerca de 20 km em quase duas horas. Era um sábado à noite. Sem trânsito. Obrigada, São Paulo.

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legalize djá!

novembro 2, 2010

“Just gonna stay here and watch you burn one. That’s all right because I love the way it smells. Just gonna stand here and watch you get high. That’s all right because it should be legalized”.

Daí vieram uns gênios e fizeram essa versão de “Love the way you Lie” do Eminem (feat. Rihanna) pra defender o ‘sim’ no plebiscito da legalização da marijuana, na califórnia. E vieram outros gênios e colocaram essas tarjas pretas no cigarrinho, pra poder ficar no ar, no youtube. D2, mas mantenha o respeito!

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Lula e eu

outubro 31, 2010

Em junho de 1989 eu tinha 4 anos e o rosto pintado à moda caipirinha. Usava chapéu de palha com trancinhas louras – porque queria ter os cabelos da Xuxa – e não podia brincar muitas vezes nas barraquinhas. Foi no Natal deste mesmo ano que troquei o cachorrinho que dava piruetas no ar, brinquedo sensação do verão, por um Ken, porque se eu ganhasse o cachorrinho, disseram meus pais, Papai Noel não teria dinheiro suficiente pra dar presente pra todas as crianças do mundo. E eu não queria que meus coleguinhas da escola e todas as outras crianças do mundo ficassem sem brinquedo.

Pois bem. Meu pai me levou na barraca da pesca e eu ganhei, de prenda, um peixe dourado. Dei a ele o nome de Lula. Foi meu primeiro e único pet. Durou três dias. Lula pulou pra fora do aquário 3 dias seguidos. No último, não resistiu. Preferiu a liberdade àquela prisão de vidro e foi ser feliz em outra dimensão. Lembro de ter chorado muito, mas passou logo. O que não passou foi minha relação com Lula. Ele ainda me faria chorar outras 3 vezes.

Em 1994 eu continuava na mesma escola. Não acreditava mais em Papai Noel e por isso já sabia que era papai quem não podia dar presentes caros. Eu já sabia que era bolsista daquela escola particular e que os estojos com botões, de onde saíam borrachas e apontadores com um click, eram caros demais para que eu pudesse ter. Eu tinha raiva. E coloquei toda essa raiva no FHC. Meu pai trabalhava em uma estatal e a ameaça das demissões ‘voluntárias’ já tinham começado. E eu e minha irmã sabíamos de tudo. E eu fui parar da direção da escola porque, quando a professora pediu para os alunos pedirem para os pais votarem no FHC eu levantei a mão e disse: “mas se vocês votarem no FHC, meu pai vai ficar desempregado! Tem que votar no Lula”. Minha mãe foi chamada na escola e eu chorei muito. Era uma aluna exemplar e nunca, nunca na vida tinha ido parar na direção.

As próximas lágrimas foram de alegria. 2002 foi o primeiro ano em que votei. E o orgulho que eu sentia de ter feito parte dessa história, que eu acreditava ser revolucionária, me fez me debulhar em lágrimas no dia da posse. Mas como toda alma pura, a minha estava prestes a ser corrompida. E em 2005 eu chorei uma última vez. De desgosto. De raiva. De vergonha. E de tristeza por ter acreditado que as coisas iam ser diferentes. Mas foram.

Não vim aqui defender mensaleiro, nem relativizar crime ou corrupção. Se sofri mais uma vez este ano por apertar “13 confirma” foi porque não sobrou ninguém nesse partido pra contar história. E daí a fabricação da Dilma. Mas se votei 13 confirma, mais uma vez, foi porque acredito que esses oito anos de governo Lula se dedicaram a projetos que deram pão a quem precisava comer e dignidade a quem não a tinha. Sou crítica do assistencialismo. Mas não cega ao real. Não dá pra deixar milhões de pessoas morrendo de fome ou sem acesso a um ensino superior de qualidade enquanto esperamos a revolução ou o pleno emprego chegar. Seriam gerações perdidas, rejeitadas, jogadas ao esmo. E isso a gente não pode aceitar.

Se ainda voto PT, se prefiro Dilma ao Serra, é porque a vida tem muitas urgências. E acertar a economia do país, ignorando a fome e o desemprego, não é a solução que eu quero e muito menos a que o país e as pessoas, de carne e osso, precisam. O que eu quero é um país em que minha mãe não tivesse saído da escola com 11 anos para ajudar no trabalho da roça e da casa. Hoje isso é possível. E enquanto a agenda for essa, enquanto as possibilidades reais forem essas, eu continuo votando 13. E, fique claro, sigo na oposição desse governo, à esquerda. Porque se a gente não continuar sonhando, pensando, lutando e pressionando por um mundo ideal, enquanto alguém faz a política real, nunca chegaremos lá.

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abobrinhas

outubro 25, 2010

dia 31 de outubro vai ser o dia mais feliz da minha vida pós-retorno-ao-brasil. eu, que não estou acompanhando mais NADA dessas eleições pra evitar a gastrite nervosa – porque ninguém nem nada pode mudar meu voto -, vou me sentir livre para voltar a ler jornal.

até lá, vou me deliciar com essas abóboras de 31 de outubro. e fingir que a histeria toda desse dia é dessa mesma poesia…

foto de lemonjenny

foto de Aumie!

Foto de jacobgduncan

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outubro 1, 2010

tá bom. chega de reclamar. chega de nostalgia londrina. agora é encarar a vida daqui pra frente, porque senão a gente enlouquece. é tempo de fazer a máscara de veneza combinar com o tapete do marrocos e de usar os pregos já existentes na parede da melhor maneira possível. no banheiro tem vários. e isso só me faz pensar em quantas pessoas já passaram por aqui antes de nós e que esse apartamento deve rir de toda nova angústia que aqui se instala e que ele vê se dissipar num toque de mágica. nossa sorte é que a última energia era boa. era de liza e marcel. era de um casal feliz. e como eles foram muito, mas muito felizes nesse mesmo espaço, dá pra dispensar as intervenções odoríficas que pensei em comprar na loja de umbanda que tem logo ali embaixo, do lado da igreja católica. também dá pra dispensar a carranca e concentrar no pé de pimenta. este sim, útil. e promissor, porque apesar de não ter visto a cara do sol nesta casa há duas semanas, sei que quando ele vier ele vai encher a área de plantas de luz. e enquanto ele não vier, a gente finge que é tudo uma limpeza planejada por Iemanjá e Santa Clara, mesmo que no último Reveillon eu tenha me vestido de cinza. então pronto. quando pararem de limpar – a sujeira é muita, como vimos no post anterior – talvez a gente consiga participar da coleta seletiva da cidade. é só de sábado e é só às 9h. mas o caminhão pode passar 2h antes ou 2h depois. e aí, cuidado. se você colocar fora do horário, o prédio leva multa. então coloque às 9h para ter direito a recorrer, porque sábado passado ele passou e levou um saco só, dos dois que deixamos. o outro foi parar na esquina, por arte do zelador que tentava evitar a multa. multa por reciclar. multa por tentar reciclar. e aí já fico toda ranzinza de novo. toda saudosa. mas o bom é pensar que a coisa é simples. e de coisa simples em coisa simples, a gente consegue melhorar. e aí dá um orgulho besta de estar aqui de novo e de fazer parte dessa história. ô se dá!

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sai pra lá, cameron!

abril 1, 2010

Se nos dias normais a gente já tem que aguentar piadinha na primeira página dos jornais ingleses, imaginem, hoje, que é Fool’s Day?

Pois é.

O Guardian deu um furo fenomenal e descobriu que a campanha do Labour’s Party vai usar a imagem agressiva do Brown (acompanharam a coisa toda do assédio moral?) a seu favor. Eles fabricaram um cartaz com a frase “Step Outside, Posh Boy! Vote Labour, or else” e fizeram uma matéria contando sobre o furo.

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Não vou me alongar na jornalistice.

Só vou contar que a campanha virou febre no Twitter. Tem gente até se reunindo pra fazer camiseta pra vender. E, nessas, o Guardian abriu um pool no Flickr só pra publicar os posters feitos pelos leitores, com sugestões para o Labour usar na sua campanha contra o posh boy, o tory tradição-família-propriedade Cameron.

Tem um melhor do que o outro. Gênios da piada esses british…

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em tempo:

#ficadica brazucada:

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chupa IPEA

março 12, 2010

No começo deste mês, o jornal gratuito daqui, o Evening Standard, publicou uma série de reportagens sobre a pobreza nos UK. A primeira capa, que pretendia cativar a compaixão do público para o assunto, relatava o enterro de crianças. Óbvio que é sempre muito triste ler sobre o enterro de crianças, e ainda mais óbvio para um cérebro latino-americano que a equação “pobreza” + “enterro de crianças” = elevada mortalidade infantil. Não era. A matéria que abria a série sobre a pobreza queria chamar a atenção para o fato de que ainda existem valas comuns coletivas no país. E cobrava o fim delas.

Vocês podem imaginar qual foi o tamanho do meu estranhamento ao ler essas páginas. E ele não parou por aí. Os pobres que o jornal descrevia não eram os pobres que a gente conhece. Aqui, eles vivem em habitação social (que, obviamente, estão longe de ser lugares decentes para morar, mas não são favelas nem ocupações ilegais) e contam com um auxílio do governo para pagar o gás (aquecimento), e as contas de água e luz. Rola ainda um subsídio para comer – e ele varia conforme a família.

Eu não conheço esses programas nem sei se eles funcionam tão bem assim. Mas o fato é que o jornal não estava fazendo denúncia do mal funcionamento dessa política social. Estava pedindo mais. Estava dizendo que era um absurdo os jovens não poderem ingressar nas universidades porque não têm 19 pounds para pagar a inscrição. Estava dizendo que era um absurdo não se ter qualquer trocado para ir ao cinema, ao teatro, comer fora de casa etc. Fiquei chocada. Chocada porque esperava que fosse encontrar um estado de bem-estar social destruído, como eles descrevem, e o que eu vejo é um estado do tamanho de meu deus ajudando as pessoas a terem uma vida digna. Chocada porque esperava que na terra da doutrina liberal, as pessoas fossem cobrar do governo crescimento do PIB, controle da moeda e mercado livre como medidas de política social. Mas não. Me enganei. Essa cobrança é brasileira. Essa cobrança é a cobrança que pede a cabeça do Bolsa Família. Eles não cobram casa, comida e escola. Cobram mais.

Me lembrei, de imediato, das aulas que tive com o professor Waldir Quadros, do Instituto de Economia da Unicamp. Ele foi um dos únicos economistas  a se posicionar contra as tão largamente divulgadas pesquisas do IPEA de que a pobreza havia diminuído e a classe ‘c’, aumentado. Com umas contas danadas, ele mostrou como, na verdade, nada mudou. E um dos cambalachos da equipe do Pochmann (que, junto  com o Waldir, foi um dos melhores professores que tive na vida) para fechar a conta foi manter a linha da pobreza em meio salário mínimo (hoje, R$ 255). Por unidade doméstica. Assim, se você ganhar mais de meio salário mínimo numa casa com 4 pessoas, você é classe ‘c’ e pode comprar um celular 3G em até 48X num crediário das Casas Bahia. E virou o rei do consumo.

Só sei que enquanto o IPEA ajeita a conta pra colorir os ganhos sociais do governo Lula, fecho este post com um dado. E vocês tirem a conclusão que quiserem disso – a minha está mais do que clara. A linha de pobreza na Inglaterra – que varia conforme o tamanho da família – é de 115 libras (345 reais) por semana para um adulto que vive sozinho, e de 279 (840) para um casal com dois filhos. O salário mínimo do Brasil é de 510 reais.