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sobre o chega de fiu-fiu

setembro 12, 2013
Quase nunca uso esse espaço pra isso, mas quando é importante, eu não me aguento.
Sobre o texto que circulou mais cedo como crítica ao Chega de Fiu-Fiu (desculpa, mas não sei mesmo seu nome, e isso não é um ataque pessoal, é só debate), o que gostaria de dizer é que ele seria perfeito se a gente vivesse em uma sociedade sem hierarquias, na qual o homem heterossexual não fosse o único a se sentir verdadeiramente livre para dirigir cantadas a desconhecidos. Um homem homossexual tem a liberdade de chamar um outro homem de gostoso, sim, mas vai ter sempre medo de morrer espancado logo mais, em uma esquina escura. A mulher vai ter sempre medo de ser chamada de vadia, porque sabe que isso pode ser lido como um convite para ser violentada em uma esquina escura. Infelizmente, ainda vivemos em uma sociedade machista e homofóbica. E se eu, individualmente, reajo às agressões verbais que sofro, isso não quer dizer que outra pessoa o faça. Dizer que o medo não deveria nos paralisar é banalizar a violência psicológica sofrida pelo outro. Eu tenho os meus traumas, que não preciso dividir com vocês todos, e também demorei pra pedir “por favor, não faça isso, me respeite”. Nosso espelho não deveria ser nunca o ponto de partida para pensar o mundo.
Há sim poderes em disputas, e há sim agência, ainda bem! – Afinal de contas, já mudamos bastante esse cenário, não? – O que não quer dizer que uma relação histórica de poder baseada na construção dos gêneros a partir dos sexos se diluiu nesses micropoderes que subvertem essa relação.Exceção não é regra, infelizmente. E mais do que estar presente, essa relação de poder entre os sexos se reforça com tantos outros marcadores de diferença, como costumamos dizer nas Ciências Sociais, como a sexualidade, a etnia e a classe social. Essas costuras hierárquicas, que todos tentamos implodir no nosso cotidiano, estão aí, oprimindo pessoas, trazendo sofrimento e dor.
O desejo faz parte de nossa humanidade, obviamente, mas expressá-lo de maneira livre e sem medo, como se pede, não é uma possibilidade real para a maioria das pessoas. Talvez seja na nossa roda de amigos, na nossa roda de Twitter, porque escolhemos pessoas com valores como os nossos para se estar por perto, mas não é assim no conjunto do mundo. Por isso considero desrespeitoso taxar a Campanha de moralista. Nunca li uma linha de texto determinando como o outro deve se comportar. Apenas incita ao fim das práticas de abuso e coerção. Os fluxogramas e insanidades argumentativas foram reações de reações à divulgação da pesquisa. Ela se tratava de um questionário elaborado como um ponto de partida para levantar o debate. Eu respondi: partiu de tipos-ideais de cantadas e perguntava às mulheres se elas se sentiam ofendidas com elas. Pode-se colocar diversas críticas à maneira como o questionário foi elaborado (partiu de categorias anteriores e não posteriores às respostas, por ex.), pois assim como toda e qualquer pesquisa, seja ela científica ou não, os métodos, a análise e os resultados encontrados vão ser sempre motivo de disputa. E ainda bem que é assim, senão a gente não precisaria mais se esforçar para pensar. Mas penso que moralizar o debate seria dizer que está proibida a paquera, está proibido o flerte, está proibido o coito, quando está mais do que cristalino que o se coloca em debate é que o assédio, o constrangimento e a violência verbal não deveriam ser socialmente aceitos com a justificativa de serem paquera. Não são!
Finalmente, já que estou falando disso, só queria dizer que o que mais me incomodou, na verdade foi a crítica à coleta de depoimentos, chamada de “depoimentismo”, para diminuir a técnica. Para mim, os depoimentos valem mais do que os números em si, porque é por meio das experiências e narrativas contadas que conseguimos ter um retrato mais fiel sobre o que as mulheres compreendem enquanto violência, assim como identificar os padrões nos quais ela ocorre e, a partir disso, construir ações para amenizar e, por que não, tentar erradicar os abusos. Recolher testemunhos e transformá-los em dados que embasam ações e políticas públicas é uma conquista das ciências sociais e é triste e ofensivo ler que colher depoimentos é uma ação vazia de política. Não é. Nunca foi. Mesmo que a ideia do Think Olga fosse parar por aqui – e eu sei que essa não é a ideia, mas entendo que seja melhor pensar que sim porque é mais fácil acusar do que construir – a campanha, com seus depoimentos doloridos e chocantes é política em si mesma não só por ter levantado esse debate, mas também por oferecer pontos de partida para eu, você e, por que não, para as autoridades públicas. O eco que ele ganhou na mídia e nas redes não apenas tocou algumas centenas ou milhares de pessoas, como também serve como medida para o poder público notar que há uma comoção em torno de um grave problema. Cabe não ao blog, mas a nós, que somos os atores sociais em cena, cobrar para que alguma coisa seja feita. O Chega de Fiu-Fiu deveria ser compreendido como mais um dos inúmeros pontos de partida dos quais deveríamos partir pra construir uma sociedade melhor, não como um ponto de chegada.
Um beijo e um apelo: por favor, não reduzam este debate à chacota.
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