Posts Tagged ‘momento “meu diário”’

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feira-livre

outubro 14, 2010

mudei de fornecedor de frutas, legumes e gordura trans.

agora é assim: uma vez por semana atravesso a rua e enfrento as pranchas de madeira que cobrem os paralelepípedos expostos pelo asfalto gasto. é uma verdadeira batalha desviar dos carrinhos de feira, dos buracos, das poças de água (antes fosse só água) e das ofertas imperdíveis que começam no pós-meio-dia. e aí que na terceira semana eu já sei que o cara da banca de frutas, de cabelo meio rasta, vai enfiar uma melancia na minha boca sem eu perceber e perguntar se não tá boa demais. e eu vou comprar sorrindo. do mesmo jeito que vou comprar sorrindo a tapioca, que hoje me conquistou pela malandragem:

– 233, 233! senha 233! é o número dos mineiros, minha gente!

juro que ainda não descobri se os três quarteirões de feira são mais caros ou mais baratos que o horti-fruti do mercado em que já vi um rato correndo pelo cano exposto da parede. mas ali é na rua, é no meio da vizinhança que passa apressada, é na base da fidelização do cliente. eu, aos poucos, vou elegendo meus favoritos, entre tantos preços e vegetais iguais. e já escolhi o cantinho certo da nossa banca de pastel, onde me encho de gordura trans como prêmio por ter enfrentado os desafios do dia. agora, ‘motorizada’ com o carrinho dobrável de metal que eu adorava empurrar vazio na casa de mamãe. pena que de lá pra cá decaiu muito a qualidade do vinagrete que eu tuxava no sempre preferido pastel de queijo, sentadinha em cima da banca de pastel…

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summer camp

julho 1, 2010

a gente acorda tarde que é pra dormir tarde e aproveitar um sol que só apaga às 22h. mas é mentira. a gente trabalha e, quando vê, o sol já apagou sem eu nem mesmo ter ido dar “bom dia”. de vez em quando, invento de ler na praça, encostada na árvore, sentada na grama. é fresco, é gostoso, é inspirador. mas só de vez em quando. eu me enredo na preguiça. me enredo no conforto. me enredo no pijama que não preciso tirar nunca mais. no cabelo que não preciso arrumar. na aparência que ninguém precisa conhecer. só eu. só ele. e começo a me sentir feia sem saber por que. e começo a me sentir morta sem saber por que. e começo a me sentir down sem saber por que. e é tudo tão óbvio, não? o sol está lá fora. depois de tanto tempo, ele está lá fora. e a gente, que se acostumou a se acostumar, se esquece que um dos maiores prazeres da vida é aproveitar um céu azul com brisa de 25ºC sentados na grama da praça na frente de casa. na praça que tem a ovelhinha tosqueada e, de vez em quando, um sorveteiro pra aliviar um verão ameno, um verão que eu desperdiço lendo dentro do studio. a gente se acostumou a se acostumar. mas não mais. eu quero poder sentir saudade dessa outra rotina. dessa que eu não vou poder repetir em são paulo, por falta de uma praça a cada 5 minutos de caminhada. é tempo de se acostumar com coisas novas.

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místicas

junho 14, 2010

Dia desses meu querido Leandro teve uma dor de dente, dessas avassaladoras. O ciso teimou em nascer só agora e todas aquelas consequências desagradáveis associadas a todo e qualquer nascimento aconteceram: sangrou, inchou, infeccionou.

Na sala do doutor, a secretária, emocionada com tanto PDA entre dois namorados em plena Londres, disparou: qual é o signo de vocês? (ok, confesso, antes ela me perguntou se eu era francesa. ah, l’amour!).

“Scorpio and Virgo”.

“Such a lovelly combination! I knew it!”.

Horóscopo lovers, sinastria amorosa do personare é tiro certeiro. nunca deixem de conferir, antes do investimento final. No nosso caso, é tanta afinidade que até a moça da cadeira do dentista ficou emocionada.

É virgem? Procure seu escorpião! ;)

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refunds: um outro mundo é possível

maio 26, 2010

quando vim pra cá, tive uma briga master de quase um mês e meio com a KLM. comprei as passagens pelo site, no cartão de crédito, e não sei por que raios eles me cobraram duas vezes. liguei, escrevi e-mail, falei com a central de amsterdã, gritei com atendente, chorei com atendente e nada. ninguém sabia responder como ou quando eu teria o meu rico dinheiro de volta. um mês e meio depois, me infantilizei e coloquei papai na linha. dinheiro de volta na conta. parti pra cá sem dignidade, mas menos pobre.

agora, os padrões uk.

aconteceu comigo três vezes. a primeira foi uma viagem frustrada a cardiff. nevou, as estradas fecharam e, quando chegamos em casa, a cia. de busão já tinha enviado um e-mail informando que haviam estornando o valor do cartão de crédito.

a segunda foi um livro que comprei pela amazon e que nunca chegou. esperei uma semana a mais só pra não bancar a chata e escrevi pro vendedor. ele me pediu pra conferir de novo na minha pigeonhole (oun!) e no royal mail. nada. disse a eles que o livro tinha sumido. eles disseram ok! e devolveram o dinheiro que tinha gasto com o livro e a postagem (e a culpa nem foi deles).

a terceira foi minha tentativa frustrada de tirar uma foto naquelas máquinas amélie poulain. fui até a estação de euston tentar fazer minha carteirinha que dá desconto nos trens e precisava de uma foto. inseri todas as ricas moedinhas que coleciono pra enfiar na máquina de lavar-roupas, tirei a foto 3X4 mais bonita da história da minha vida (dá pra ver na telinha) e… FÓN!!!!!!!!!!!!!!! a máquina não cuspiu a foto impressa. fiquei puta da vida. eram 5 libras em moedinhas de 5, 10 e 20 centavos. saí da cabine resmungando, o cara do lado viu e disse: liga pra eles. rá! pra cima de moi?! Liguei crente de que perderia mais 5 libras só na ligação. me atenderam em 5 segundos. passei o código da máquina. pediram meu nome completo e endereço e em dois dias (juro!) tinha um cheque nominal com juros na minha pigeonhole.

moral da história (associação livre mode on): a foto da minha carteirinha do trem é ridícula.

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A real Boxing Day

dezembro 27, 2009

Grandes expectativas para o Boxing Day. Aqui, um dia depois do Natal, as lojas descem seus estoques e fazem uma grande liquidação. Foi num dia desses que uma pessoa morreu pisoteada no ano passado, nos States. E a gente, é claro, não poderia perder uma oportunidade dessas: a de fazer uma participação observante assistindo e sentindo (ai! larga o meu casaco! eu vi primeiro!) a turba do consumo enfurecida pela Oxford Street  (tradicional rua de compras melhor custo-benefício do centro de Londres), e, é claro, aproveitamos para fazer umas comprinhas também.

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Como disse um amigo nosso daqui do IH, se existe o inferno, ele está cheio de blusinhas a 2 libras…

O problema todo foi que apesar dos tênis da puma por 20 ou 30 libras e das calças Calvin Klein a 10, não há loja melhor custo-benefício que a Primark. E eu, seduzida pela possibilidade de comprar muito por muito pouco, acabei deixando minhas ambições de consumo para essa última lojinha. O problema é que a Primark fica no último quarteirão da Oxford e, durante as 4h de caminhada e entra-e-sai das outras lojas, quando lá cheguei, pedi arrego. Liguei o piloto automático das compras e perdi a capacidade de encontrar grandes ofertas entre um mundo de pessoas disputando as peças da arara. Fui vencida pelo cansaço e pela claustrofobia e voltei pra casa com um casaco e três blusinhas.

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enquanto eu contava as moedinhas, a galere fazia fila pra comprar cristal

Mas o que eu ainda não tinha contado para vocês é que vivi um verdadeiro Boxing Day. Tradicionalmente, as famílias mais abastadas saíam presenteando a ralé no dia 26. Alguns chamam isso de espírito de Natal, mas eu chamo de culpa social. Investida dessa culpa, Madame Victoria, todo dia 26 de dezembro, sempre levava uma caixona de presentes e distribuía na perifa. Daí o Boxing, do Boxing Day.

Pois bem. Um pouquinho antes, no dia 23, fui jogar o lixo fora quando me deparei com uma sacola sortida de roupas e sapatos de menina. Tudo do meu tamanho. No hubo dudas: me apropriei da limpeza de armário da vizinhança, botei tudo na máquina de lavar e agora tô desfilando minha cashmerie novinha e cheirosa da Zara. Partilho com vocês o aprendizado da vez: o verdadeiro espírito do boxing day é partilhar com os pobres. Querendo contribuir, me manda um e-mail que eu passo meu endereço pra receber as doações ;)

my boxinjg day

minha box collection =)

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Os peladões do Canal 4

dezembro 23, 2009

A televisão é uma das melhores formas de se entender o way-of-living dos nativos. A grade de programação dos domingos brasileiros dos anos 90, por exemplo, nos diz muito sobre as concepções de gênero que informavam nossa société d’entonces. Quem é que não se lembra da banheira do Gugu, da prova da camiseta molhada, do cumpadí Wanshington cantarolando “Quebra, ordinária!”, da abertura do Fantástico etc? Pânico e baixarias como essa à parte, Lei Maria da Penha veio com tudo pra esconder essa objetificação das mulheres no espaço da casa, do trabalho, da internet e da Rede TV! (né, hipócritas!?).

Até ontem a noite, ainda não tinha assistido nada da TV inglesa. Só havia confirmado que o Rowan Atinkson é mesmo uma grande estrela dessa nação. (Vira-e-mexe sai notinha no jornal dizendo que ele deu uma de Mr. Bean na vida real. Outro dia, por exemplo, saiu uma notinha dizendo que o  motor do carro dele pegou fogo na rua, quando ele ía para uma premiê, e causou um fuzuê).

Mas eis que nossos vizinhos, dani e vinícius, nos presentearam com a referência de uma pérola televisiva ontem a noite: “How to look good naked”. A idéia do reality não é fazer a pessoa perder 50 Kg em um mês, como no “The Biggest Loser” ou passar por 459 cirurgias plásticas e ficar irreconhecível, como no “The Swan”. Eles pretendem, simplesmente, que a pessoa passe a amar o seu corpo do jeito que ele é. E o ápice da história é a realização de um ensaio sensual e um desfile peladão na frente da família toda e de um público que encheria o maracanãzinho.

Para um país em que não se pode importar ponografia – nem produzi-la se seu cunho sócio-cultural não for justificado -, a idéia de alguém desfilar peladão no meio de um shopping center pareceria surreal. Mas ela tá aí, no Canal 4, entretendo a geral. Na abertura, uma menina de costas exibe um pedaço do seu seio e da sua bunda, ao descer a única peça que a veste: uma calcinha. Sensacional. Isso, no Brasil, só no Superpop ou no Multishow pós-meia-noite.

Para vocês se divertirem (será que o vídeo abre aí?), o episódio que assistimos ontem a noite, da senhorinha de 72 anos que pagou peitinho em rede nacional, está neste link.

Unfortunately, eles não me permitem upar o vídeo aqui =(

Have fun, mates!

Em tempo: é. o vídeo não abre no Brasil. uma pena, minha gente… =(

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só para meninas

dezembro 16, 2009

Sou muito fashion disaster quando se trata de se vestir por volta de zero graus. Ainda não experimentei o glamour de abrir o casaco e oferecer ao público pagante uma visão um pouco menos “roupas de Monte Sião” do inverno passado. Nada contra as cacharréis de lã de várias cores que tanto me aquecem. Mas preciso aprender que a vida das roupas em camadas pode ir muito além da blusa da faxina escondida por debaixo da blusa de gola alta. O problema é que quando você sai na rua assim e eventualmente entra num Pub, você não sabe o que é pior: ficar com a blusa de gola alta e deixar a da faxina aparecendo por baixo, alertando o mundo para o seu desleixo, ou deixar-se ficar com o casaco para pagar de gatinha e suar bicas.

Pois bem, a vida em camadas está me rendendo uma lição e me obrigando a fazer uma promessa de ano novo. Uma tia minha sempre conta que a mãe só se veste com lingerie bonita até pra ir fazer a feira. Ela diz “nunca se sabe se vamos passar mal. Vai que a gente vai parar no hospital e o médico vê a gente com a calcinha furada e o sutiã puído? Imagina que vergonha?”. Por aqui, vou adotar a máxima dessa sábia senhoura para as camadas expandidas. A partir de hoje, prometo me vestir com roupas bonitas para as eventuais desmontagens do equipamento de aquecimento montado sobre meu corpo. Porque visto C&A, Renner e Primark, mas arroto Burberry.