Archive for outubro \31\UTC 2010

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Lula e eu

outubro 31, 2010

Em junho de 1989 eu tinha 4 anos e o rosto pintado à moda caipirinha. Usava chapéu de palha com trancinhas louras – porque queria ter os cabelos da Xuxa – e não podia brincar muitas vezes nas barraquinhas. Foi no Natal deste mesmo ano que troquei o cachorrinho que dava piruetas no ar, brinquedo sensação do verão, por um Ken, porque se eu ganhasse o cachorrinho, disseram meus pais, Papai Noel não teria dinheiro suficiente pra dar presente pra todas as crianças do mundo. E eu não queria que meus coleguinhas da escola e todas as outras crianças do mundo ficassem sem brinquedo.

Pois bem. Meu pai me levou na barraca da pesca e eu ganhei, de prenda, um peixe dourado. Dei a ele o nome de Lula. Foi meu primeiro e único pet. Durou três dias. Lula pulou pra fora do aquário 3 dias seguidos. No último, não resistiu. Preferiu a liberdade àquela prisão de vidro e foi ser feliz em outra dimensão. Lembro de ter chorado muito, mas passou logo. O que não passou foi minha relação com Lula. Ele ainda me faria chorar outras 3 vezes.

Em 1994 eu continuava na mesma escola. Não acreditava mais em Papai Noel e por isso já sabia que era papai quem não podia dar presentes caros. Eu já sabia que era bolsista daquela escola particular e que os estojos com botões, de onde saíam borrachas e apontadores com um click, eram caros demais para que eu pudesse ter. Eu tinha raiva. E coloquei toda essa raiva no FHC. Meu pai trabalhava em uma estatal e a ameaça das demissões ‘voluntárias’ já tinham começado. E eu e minha irmã sabíamos de tudo. E eu fui parar da direção da escola porque, quando a professora pediu para os alunos pedirem para os pais votarem no FHC eu levantei a mão e disse: “mas se vocês votarem no FHC, meu pai vai ficar desempregado! Tem que votar no Lula”. Minha mãe foi chamada na escola e eu chorei muito. Era uma aluna exemplar e nunca, nunca na vida tinha ido parar na direção.

As próximas lágrimas foram de alegria. 2002 foi o primeiro ano em que votei. E o orgulho que eu sentia de ter feito parte dessa história, que eu acreditava ser revolucionária, me fez me debulhar em lágrimas no dia da posse. Mas como toda alma pura, a minha estava prestes a ser corrompida. E em 2005 eu chorei uma última vez. De desgosto. De raiva. De vergonha. E de tristeza por ter acreditado que as coisas iam ser diferentes. Mas foram.

Não vim aqui defender mensaleiro, nem relativizar crime ou corrupção. Se sofri mais uma vez este ano por apertar “13 confirma” foi porque não sobrou ninguém nesse partido pra contar história. E daí a fabricação da Dilma. Mas se votei 13 confirma, mais uma vez, foi porque acredito que esses oito anos de governo Lula se dedicaram a projetos que deram pão a quem precisava comer e dignidade a quem não a tinha. Sou crítica do assistencialismo. Mas não cega ao real. Não dá pra deixar milhões de pessoas morrendo de fome ou sem acesso a um ensino superior de qualidade enquanto esperamos a revolução ou o pleno emprego chegar. Seriam gerações perdidas, rejeitadas, jogadas ao esmo. E isso a gente não pode aceitar.

Se ainda voto PT, se prefiro Dilma ao Serra, é porque a vida tem muitas urgências. E acertar a economia do país, ignorando a fome e o desemprego, não é a solução que eu quero e muito menos a que o país e as pessoas, de carne e osso, precisam. O que eu quero é um país em que minha mãe não tivesse saído da escola com 11 anos para ajudar no trabalho da roça e da casa. Hoje isso é possível. E enquanto a agenda for essa, enquanto as possibilidades reais forem essas, eu continuo votando 13. E, fique claro, sigo na oposição desse governo, à esquerda. Porque se a gente não continuar sonhando, pensando, lutando e pressionando por um mundo ideal, enquanto alguém faz a política real, nunca chegaremos lá.

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hair

outubro 28, 2010

via Ffffound!

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abobrinhas

outubro 25, 2010

dia 31 de outubro vai ser o dia mais feliz da minha vida pós-retorno-ao-brasil. eu, que não estou acompanhando mais NADA dessas eleições pra evitar a gastrite nervosa – porque ninguém nem nada pode mudar meu voto -, vou me sentir livre para voltar a ler jornal.

até lá, vou me deliciar com essas abóboras de 31 de outubro. e fingir que a histeria toda desse dia é dessa mesma poesia…

foto de lemonjenny

foto de Aumie!

Foto de jacobgduncan

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Paulie

outubro 19, 2010

então vamos aproveitar que o segundo show foi confirmado pra convencer os de coração de pedra a ir ver um beatle.

meninos, eu vi. eu vi e foi a coisa mais bonita e emocionante que vi nos últimos tempos. fazia tempo que um palco não fazia meu coração bater forte e sentir um orgulho bobo de estar presente naquele momento, com aquelas pessoas, naquele show. as senhourinhas, protagonistas da revolução sexual que permitiu a gente ser o que gente bem quiser, cantavam e dançavam histericamente, acompanhadas de seus companheiros de vida, seus companheiros de beatles, seus companheiros de 1960 e poucos. eu não sabia se chorava de vê-los ali, realizando um sonho ao lado de filhos e netos, se chorava de estar realizando um sonho meu, da minha vida, ou se chorava porque paul sabe fazer a gente chorar… Ele é O cara. Sabe que fomos ali à procura de um tempo bom que não volta nunca mais e faz a gente vivê-lo, mesmo sem lennon e sem george. Foi a melhor performance de palco que vi na vida. A melhor interação com a plateia. A melhor produção. A melhor banda. E a plateia mais empolgada que jamais vi. Paul McCartney é pura covardia. Se você, caro leitor, ainda não comprou seu ingresso, permita-se. Economize a cerveja, o cigarro, o chocolate, enfim, o vício que for, e se jogue no lugar que o seu dinheiro permitir. Só não deixe de ir porque vai saber quando você vai poder ver um beatle tocar de novo…

Hey Jude from Pés de Amora on Vimeo.

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feira-livre

outubro 14, 2010

mudei de fornecedor de frutas, legumes e gordura trans.

agora é assim: uma vez por semana atravesso a rua e enfrento as pranchas de madeira que cobrem os paralelepípedos expostos pelo asfalto gasto. é uma verdadeira batalha desviar dos carrinhos de feira, dos buracos, das poças de água (antes fosse só água) e das ofertas imperdíveis que começam no pós-meio-dia. e aí que na terceira semana eu já sei que o cara da banca de frutas, de cabelo meio rasta, vai enfiar uma melancia na minha boca sem eu perceber e perguntar se não tá boa demais. e eu vou comprar sorrindo. do mesmo jeito que vou comprar sorrindo a tapioca, que hoje me conquistou pela malandragem:

– 233, 233! senha 233! é o número dos mineiros, minha gente!

juro que ainda não descobri se os três quarteirões de feira são mais caros ou mais baratos que o horti-fruti do mercado em que já vi um rato correndo pelo cano exposto da parede. mas ali é na rua, é no meio da vizinhança que passa apressada, é na base da fidelização do cliente. eu, aos poucos, vou elegendo meus favoritos, entre tantos preços e vegetais iguais. e já escolhi o cantinho certo da nossa banca de pastel, onde me encho de gordura trans como prêmio por ter enfrentado os desafios do dia. agora, ‘motorizada’ com o carrinho dobrável de metal que eu adorava empurrar vazio na casa de mamãe. pena que de lá pra cá decaiu muito a qualidade do vinagrete que eu tuxava no sempre preferido pastel de queijo, sentadinha em cima da banca de pastel…

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outubro 1, 2010

tá bom. chega de reclamar. chega de nostalgia londrina. agora é encarar a vida daqui pra frente, porque senão a gente enlouquece. é tempo de fazer a máscara de veneza combinar com o tapete do marrocos e de usar os pregos já existentes na parede da melhor maneira possível. no banheiro tem vários. e isso só me faz pensar em quantas pessoas já passaram por aqui antes de nós e que esse apartamento deve rir de toda nova angústia que aqui se instala e que ele vê se dissipar num toque de mágica. nossa sorte é que a última energia era boa. era de liza e marcel. era de um casal feliz. e como eles foram muito, mas muito felizes nesse mesmo espaço, dá pra dispensar as intervenções odoríficas que pensei em comprar na loja de umbanda que tem logo ali embaixo, do lado da igreja católica. também dá pra dispensar a carranca e concentrar no pé de pimenta. este sim, útil. e promissor, porque apesar de não ter visto a cara do sol nesta casa há duas semanas, sei que quando ele vier ele vai encher a área de plantas de luz. e enquanto ele não vier, a gente finge que é tudo uma limpeza planejada por Iemanjá e Santa Clara, mesmo que no último Reveillon eu tenha me vestido de cinza. então pronto. quando pararem de limpar – a sujeira é muita, como vimos no post anterior – talvez a gente consiga participar da coleta seletiva da cidade. é só de sábado e é só às 9h. mas o caminhão pode passar 2h antes ou 2h depois. e aí, cuidado. se você colocar fora do horário, o prédio leva multa. então coloque às 9h para ter direito a recorrer, porque sábado passado ele passou e levou um saco só, dos dois que deixamos. o outro foi parar na esquina, por arte do zelador que tentava evitar a multa. multa por reciclar. multa por tentar reciclar. e aí já fico toda ranzinza de novo. toda saudosa. mas o bom é pensar que a coisa é simples. e de coisa simples em coisa simples, a gente consegue melhorar. e aí dá um orgulho besta de estar aqui de novo e de fazer parte dessa história. ô se dá!