Posts com Tag ‘narrativas’

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Era uma vez, em São Benedito das Areias

Abril 15, 2009

“Feche a janela e a porta e apague a luz para os espíritos não entrarem. Fique em silêncio, pecador. Nessa casa tem um pecador.”

Foram essas frases musicadas que minha avó ouviu durante a semana santa. Um grupo de nove homens saiu do cemitério trajado de roxo, em fila indiana, cantarolando isso no meio da noite. Passaram em todas as casas do arraial sem olhar para trás, senão os espíritos os seguiriam. Não podiam ser vistos por ninguém, senão os espíritos entraríam em suas casas. No pé da janela de cada casa, entoavam essa canção com voz rouca e tremulada. Emendavam algumas ave-marias e pais-nossos e tocavam a caminhada. Na sexta-feira santa terminaram o percurso no lugar em que começaram: o cemitério. No dia em que recebeu a visita desses homens vestidos de roxo, vovó apagou as luzes, fechou as portas e janelas, rezou as ave-marias e pais-nossos e achou graça de eu dizer que morreria de medo. Da próxima vez, quero estar lá para documentar.

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escorregando no servo-croata

Julho 17, 2008

Para constar nas buscas do google, para que futuros pesquisadores não passem pelo vexame que eu acabei de passar: autogestão na antiga Iuogoslávia é equivalente a “samoupravljanje” e não a “samoupravlje”. Estamos entendidos?

Aparentemente, além da guerra que mata gente e verte sangue (é sempre bom usar o verbo no tempo correto) há uma guerra lingüística nas terras do general Tito. Assunto muito complicado, mas a indicação é a de que os bósnios e montenegrinos se valeram da construção de diferenças lingüísticas para justificar sua autonomia nacional. Eles romperam o acordo de unidade lingüística servo-croata (similar ao que o Brasil acaba de assinar com os outros países de língüa portuguesa) para introduzir aí um elemento de unidade nacional: os lingüístas tiraram umas consoantes, botaram outras e záz (como diria o Quico, do Chavez). Daí todo mundo escrever “samoupravlje”, palavra que não existe no dicionário servo-croata, ao invés de “samoupravljanje”.

Para complicar ainda mais: quem me contou essa história foi uma professora sérvia da Universidade de Belgrado (é. pois é).

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mulher pipa

Junho 11, 2008

Me lembro que quando tinha 13, 14 anos meu maior desejo era apagar meu passado todo e recomeçar a vida em outro lugar. Tinha que ser bem longe daqui e inacessível aos desejos adolescentes – afinal de contas, quem aos treze anos sonhava em ir morar no Cambodja, por exemplo? Disse sonhava porque hoje os tempos são outros. E a moda não é mais o moletom da Pólo (Ralph Loren). Essa coisa de andar desgranhento e ganhar o mundo é o mais novo diferenciador social da moçada. Afinal de contas é preciso ter muito dinheiro pra fazer intercâmbio na Finlândia…

Nokias a parte, eu queria mesmo era sumir. Sumir e reaparecer em outro lugar. Queria apagar aquela imagem de menina boazinha que estudou em colégio de freira e só tirava “A”, e tocar o terror pelo mundo. Ai, e como doía ser a “Sandy” da turma (é, tinha quem me chamasse assim).

Não fiz intercâmbio algum nem nunca usei moletom da Pólo. Ainda me sinto pequenininha frente aos dragões que encontro pelo caminho, mas já conversamos, pelo menos. O medo de falar pra não ofender se transformou em educação. E dispensei a ingenuidade aguda.

Dez anos depois, ser nerd se transformou em qualidade e não tenho mais vergonha de dizer que eu assisto filme de arte pra depois sorrir ao ouvir uma musiquinha do Justin Timberlake. Deixei estar as contradições e entendi que faz parte. Às vezes é difícil, mas eu entendo como se joga a Rayuela e aí fica tudo bem. É preciso flutuar os pés um pouco pra voltar a pisar o chão. Dá muito medo de esbarrar na linha ou de errar a pedrinha. E a gente erra. E tudo bem.

Tô ensaiando o próximo pulo. E aquela menininha de treze anos não pára de me assombrar: seria melhor se eu pudesse inventar uma outra história sobre mim, num outro tempo, num outro espaço. Mas já me apeguei demais [a mim]. E aprendi que se se vive, se vive inventando. Como a Amélie da Audrey Tatou.