Posts com Tag ‘momento “meu diário”’

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trabalho e cia.

Junho 10, 2009

No começo do ano me inscrevi naqueles sites de vagas de emprego. Recebi um monte de convites para me candidatar a vagas que nada tinham a ver com o meu perfil profissional. Até aí, ok.

Mas não é que hoje eu recebi um aviso da vaga mais bizarra que já vi na vida?

Se oferece 1 vaga/s para trabalhar em São Paulo na área profissional Ciências, Pesquisa, Ciências Sociais

ser humano disposto a experiências de autoconhecimento e abertura da mente para quebra de paradigmas através da arte

E, pasmem, é pra trabalhar como voluntário em período integral!

Já não bastava minha experiência transcendental com uma vertente de yoga que dizia pra eu sentir minha kumalini (energia) saindo em forma de vento da cabeça? Me chicoteie, jesus!

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de greves e prozacs

Junho 9, 2009

greve é isso: há os que entram em depressão e há os que fazem da tristeza algo propositivo. eu oscilo. vomita-se números, projetos de leis que nos tocam de maneira negativa, histórias de vitórias e de fracassos passados, experiências pessoais nessa ou naquela manifestação/ocupação/etc. disputa-se de quem é a postura mais vanguardista, mais equilibrada, mais conservadora, mais aglutinadora. discorda-se de tudo para concordar depois, com outras palavras. e ninguém, nunca, chega a um acordo. “o dissenso é o coração da democracia”, grita alguém. chovem trocas de acusações, os hormônios pulsam, as vozes se exaltam, o frio chega, o sol se vai e alguém retoma aristóteles para dizer que assembleia só funciona com poucos. com muitos, não dá. aí não dá pra tomar decisão aqui nem ali. mas tem que tomar. e marca-se uma nova data pra discutir o que já foi discutido e decidido, que é para as pessoas terem tempo de repensar e mudar de opinião. serem convencidas. ostensivamente convencidas. criam comitês disso e daquilo pra descentralizar as decisões, mas a gente só pode decidir em assembleia – aquela que não funciona. e a gente protela. protela. protela. e só fica cada vez mais triste, mais impaciente, mais certo de que o futuro é tenebroso. e as pessoas voltam para casa e continuam a trabalhar em silêncio. trocam as assembleias, os fóruns, as reuniões, os comitês, as comissões, as ações diretas, pelo conforto da solidão. porque é difícil, muito difícil, viver em coletivo.

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a novela e a vida

Maio 15, 2009

1993 foi o ano que mudou minha vida.

Benedito Ruy Barbasa estreou Renascer (“airá, cairá, iuleio leio lá”)com o João Pedro pisando cacau no terreiro e o Tião Galinha criando o diabo dentro da garrafa. 

Tinha lá meus nove anos e meu corpo começava a dar os primeiros sinais de mudança. O meu, o das minhas coleguinhas e o dos meus coleguinhas. As meninas estavam ficando peitudas e os meninos, peludos. Eu não estava ficando peituda. Mas estava ficando peluda!

Foi aí que veio o choque. Além do Tião Galinha e do João Pedro, a novela tinha a Buba no elenco. Foi então que eu tive uma iluminação, um amparo, alguém com quem me identificar: a Buba!

Foi uma tortura. Vivi uns bons meses com a dúvida: seria eu hermafrodita?

Eu, àquela época, não frequentava clube nem fazia atividade física que implicasse vestiário. Também não tinha computador em casa (386?), não existia internet de massa, muito menos o Google (por que, meu deus, por que?). Aí, a imaginação correu solta e a Maria Luísa Mendonça era a única pessoa do mundo que podia entender minha angústia. Ah, Buba, e como eu entendia a sua…

A pulga só saiu de trás da orelha depois da primeira menstruação. Acho que até chorei, de tão feliz que fiquei de saber que era menina. Mas hoje, olhando pra trás, só penso nesse outro grande mal que a formação em um colégio católico tradicional me fez. A repressão era tanta que tinha medo de me expressar. Uma conversa com a mãe resolveria nessas horas, mas e o medo de todo mundo descobrir que eu era o terceiro sexo? 

Obrigada, Buba, por ter segurado a minha mão naqueles tempos difíceis. Você foi a heroína da minha pré-adolescência.

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em tempo

Abril 27, 2009

mamãe mandou avisar que tirei 10 na aula de drama.

acho que a moda da bipolaridade me pegou! sou hype!

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de escolhas e limites

Abril 25, 2009

Cresci ouvindo que tudo o que acontecia na vida da gente era resultado de nosso trabalho. Sem esforço, não é possível chegar a lugar algum. Exemplos de pessoas que deram certo na vida a duras penas não faltavam e era esse modelo que eu deveria seguir se quisesse ter sucesso e autonomia financeira. Desde cedo estudei muito. Era uma rotina hiper disciplinada. Nunca faltei com as lições de casa, estudava mais do que o professor mandava e fazia trabalhos à parte. Fazia enciclopédias particulares de papel almaço. Era ali, naqueles calhamaços, que eu reunia todo o meu tesouro particular. Mamãe insistia que a riqueza nada mais era do que o saber. Quis saber muito, quis tirar as melhores notas, quis não parar de estudar. Meus pais pararam e nada poderia dar mais orgulho a eles do que ver as filhas diplomadas. E com títulos. Saber é riqueza. Para quem, não sei.

Achei bonito ser intelectual. Não porque desse status. Mas por outros prazeres morais que não sei explicar. Acho que queria ajudar a pensar o mundo, pra ajudar a consertar. Mas nunca nem tinha ouvido falar de Antonio Candido, Sérgio Buarque de Hollanda e tantos outros antes de vivenciar uma festa de faculdade e de entender, na carne, o conceito de “bandeijar”. Insisti. Achei ainda mais bonito saber daquilo tudo e ler todos aqueles livros. Fiz como no vestibular e estudei, estudei e estudei até cansar. No vestibular, pouco adiantou acordar diariamente às 7h e estudar direto até por volta do meio-dia. Na verdade me convenci de que era bonito ser intelectual, carreira que escolhi por acidente, já que o queria mesmo era passar na USP e fazer jornalismo. Não deu. Mesmo com a vida toda passada em escola particular, tirando as melhores notas e usando quase todo o meu tempo livre para os estudos. Uma colega filha de pais que cursaram a universidade me disse que eu tinha perfil para Ciências Sociais e eu me inscrevi, na falta de curso melhor na área de humanas na Unicamp. Passei. Menos por mérito e menos por sorte do que por uma questão numérica de candidato/vaga. Cursei porque cresci ouvindo que se me pagavam escola particular era pra estudar em escola pública e pra passar no vestibular. Tinha vergonha de fazer cursinho. Criei a narrativa, tive umas aulas com o Octavio Ianni, e achei bonito ser intelectual.

A vida veio me perguntar se eu tinha certeza logo que eu me formei. Até então, ia seguir carreira acadêmica. Falta de opção disfarçada do discurso de que nada mais bonito do que ter título de mestre e de doutor. Mas me saudaram a dívida de toda aquela dedicação à Matemática, Química e Física dos anos de estudo para o vestibular e me ofereceram uma oportunidade de trabalhar como jornalista. Bati e voltei. Acho que por orgulho. Não suportava a ideia de não ser boa naquilo que estava aprendendo a fazer. Na academia, me ofereceram os louros de um segundo lugar em um concurso de mestrado. Me deixei enganar pelo discurso da meritocracia e escolhi o caminho confortável. Covardia, medo ou as duas coisas. Quis mostrar que era bonito ser intelectual, mas me esqueci do fundamental: não sou herdeira. Um curso tão apartado do mercado de trabalho quanto este, não poderia me levar a outro caminho que não o da necessidade financeira. Apavorada com a falta de possibilidades, dou espaço à angústia e à tristeza. A raiva cresce e, com ela, a busca por culpados.

O fato é que essa ética do trabalho me cegou para o fato de que a meritocracia nem sempre funciona. Trabalho duro e disciplinado nem sempre traz riqueza e resultados. Muito menos o faz, o acúmulo de conhecimento. A falta de responsabilidade foi minha em ousar escolher uma carreira que pouco tem a ver com o meu perfil: ninguém na minha família é erudito, rico, artista, político ou ocupa posição de destaque nas esferas de poder. E a carreira de intelectual pede um acúmulo de capital cultural ou uma disponibilidade de tempo livre para os estudos que a minha família não tem estrutura para me dar. Já tinha percebido esse limite antes, mas quis ultrapassar. Quis ser a exceção, o Sílvio Santos dos camêlos. Mas, chegando aos vinte e cinco anos, morando na casa dos pais e sem dinheiro entrando na conta do banco, fica difícil alimentar essa vaidade. Sim, porque olhando agora, com os currículos retornando com silêncios e negativas e os concursos me mostrando que tanta dedicação aos estudos, mais uma vez, não me ajuda a conquistar uma vaga concorrida, esse mestrado que passou e esse doutorado que está não passam de vaidades. Há um limite material para as escolhas que a gente faz na vida. Por isso, talvez, seja tempo de repensá-las.

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décadence avec élégance

Dezembro 30, 2008

eu sempre soube que este dia iria chegar, mas não esperava que viesse tão cedo. desde nosso primeiro contato, de nosso primeiro encontro… ele me prometeu que não, que a coisa não evoluiria a tal ponto. bastava que eu seguisse a risca a posologia e não abusasse muito do uso. aos poucos, fui ficando dependente. hoje, ao entrar no banho, minha vista ficou embaçada. o óculos não gostou do batismo no chuveiro. e eu me senti, pela primeira vez, uma quatro olhos. o pior é que antevejo as próximas fases: acordar e, antes de levantar da cama, colocar o óculos. mais tarde, ter uma coleção deles, no melhor estilo “Marília Gabriela Entrevista”. ai de mim, santa Luzia!

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dessas eleições

Outubro 6, 2008

Este ano foi difícil votar. Partido político não existe mais, mas não me permito, por princípio, a confundir público e privado: não quero que meu voto compute qualquer pessoalidade. Excluí então os homens bons, todos os conhecidos e ”as pessoas de bem”. Porque demos e tucanos. Porque as pessoas de bem, que contam os centavos para pagar as contas, não se dão conta de que defendem a mesma plataforma política que aprofundou ou simplesmente ignorou sua condição econômica e social. Não posso votar no cara legal que acha que a privatização das estatais foi a melhor coisa que o FHC poderia ter feito por este país. Partidos não existem mais, mas não dou meu voto para aplaudir sua história. Há ali qualquer coisa de acúmulo que não posso ignorar em troca de alguns sorrisos ou solidariedade. Por isso, PSDB e PFL (pra lembrar de onde vieram os ‘vamos-surfar-na-onda-estadunidense’ democratas) nunca foram uma opção. E jamais serão. Por isso, o PT deixou de ser, mas, a depender do cenário, pode ainda ser. Como foi no segundo turno das últimas eleições para presidente.

Foi difícil votar. Excluí as pessoas de bem do DEM, as pessoalidades, os partidos e não me sobrou nada. Só deserto e os dissidentes da estrela. Titubeei. Pela história. Porque minha formação me ensinou que sem mudar a “estrutura” não adianta. Eu não conheço o Psol e o PSTU por dentro, mas me basta assistir aos militantes do movimento estudantil e suas táticas de guerra. Aquilo ali é o microcosmo do partido. Fechei os olhos e dei um voto de confiança. Menos a eles e mais à política. Que sei, é isso aí. Mas que preciso acreditar que um dia não será. E, para mim, só não será quando não tivermos um democrata levando a prefeitura de São Paulo. É triste. E só sei que nessa de recorrer ao bizarro e entregar pra Deus, muita gente se esquece de que pastor de igreja evangélica não faz nenhum deficiente físico voltar a andar. Que me perdoem a comparação, mas é que aprendi com meus pais que valores e princípios a gente não leiloa nem por vingança. Por mais justa que ela seja. Minha solidariedade vai com estes valores e princípios. E assim vai ser enquanto me for possível…