“Feche a janela e a porta e apague a luz para os espíritos não entrarem. Fique em silêncio, pecador. Nessa casa tem um pecador.”
Foram essas frases musicadas que minha avó ouviu durante a semana santa. Um grupo de nove homens saiu do cemitério trajado de roxo, em fila indiana, cantarolando isso no meio da noite. Passaram em todas as casas do arraial sem olhar para trás, senão os espíritos os seguiriam. Não podiam ser vistos por ninguém, senão os espíritos entraríam em suas casas. No pé da janela de cada casa, entoavam essa canção com voz rouca e tremulada. Emendavam algumas ave-marias e pais-nossos e tocavam a caminhada. Na sexta-feira santa terminaram o percurso no lugar em que começaram: o cemitério. No dia em que recebeu a visita desses homens vestidos de roxo, vovó apagou as luzes, fechou as portas e janelas, rezou as ave-marias e pais-nossos e achou graça de eu dizer que morreria de medo. Da próxima vez, quero estar lá para documentar.

