greve é isso: há os que entram em depressão e há os que fazem da tristeza algo propositivo. eu oscilo. vomita-se números, projetos de leis que nos tocam de maneira negativa, histórias de vitórias e de fracassos passados, experiências pessoais nessa ou naquela manifestação/ocupação/etc. disputa-se de quem é a postura mais vanguardista, mais equilibrada, mais conservadora, mais aglutinadora. discorda-se de tudo para concordar depois, com outras palavras. e ninguém, nunca, chega a um acordo. “o dissenso é o coração da democracia”, grita alguém. chovem trocas de acusações, os hormônios pulsam, as vozes se exaltam, o frio chega, o sol se vai e alguém retoma aristóteles para dizer que assembleia só funciona com poucos. com muitos, não dá. aí não dá pra tomar decisão aqui nem ali. mas tem que tomar. e marca-se uma nova data pra discutir o que já foi discutido e decidido, que é para as pessoas terem tempo de repensar e mudar de opinião. serem convencidas. ostensivamente convencidas. criam comitês disso e daquilo pra descentralizar as decisões, mas a gente só pode decidir em assembleia – aquela que não funciona. e a gente protela. protela. protela. e só fica cada vez mais triste, mais impaciente, mais certo de que o futuro é tenebroso. e as pessoas voltam para casa e continuam a trabalhar em silêncio. trocam as assembleias, os fóruns, as reuniões, os comitês, as comissões, as ações diretas, pelo conforto da solidão. porque é difícil, muito difícil, viver em coletivo.
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intervalo para um merchan
Maio 22, 2009Quero dividir uma descoberta com vocês.
A Discurso Editorial, por iniciativa de um grupo de professores da FFLCH da USP, está editando o “Jornal de Resenhas” – aquele que circulou na Folha de S.Paulo entre 1995 e 2004 em parceria com a USP, Unesp, UFMG e Unicamp.
A primeira edição saiu em março deste ano e é um primor. Tem 16 resenhas assinadas por Sergio Micelli, José Murilo de Carvalho, Bresser-Pereira, Sidney Chalhoub, Heloísa Pontes e outros, analisando livros diversos. Para se ter uma ideia de como o jornal também é alimentado com resenhas de livros que não tratam diretamente de teoria social, há análises dos textos da juventude de Borges, e dos livros “Amuleto”, de Roberto Bolaño, e “O Filho Eterno”, de Cristóvão Tezza.
Em tempos em que está todo mundo comprando a Revista Serrote, o jornal é um alento: custa apenas R$ 3,00 e está a venda em livrarias e bancas de jornais. Não descobri em quais nem qual é a peridiocidade do jornal, mas dá pra perguntar no discurso@usp.br.
Ah! No site da Discurso dá pra comprar os livros que reúnem os textos que circularam na Folha. E não é caro.
Em tempo: Leandro mandou o e-mail e avisa que o “Jornal de Resenhas” está à venda na Livraria Cultura e na Martins Fontes.

Madagascar e a loucura do trabalho
Maio 20, 2009Christophe Dejours escreveu “A Loucura do Trabalho” em 1980 depois de estudar as enquetes clínicas solicitadas pelos próprios trabalhadores na década de 1970, na França. Ele concluiu que, apesar da pressão gerada pelas novas formas de organização do trabalho, os trabalhadores criavam mecanismos defensivos, em sua maioria, coletivos, para se proteger dos danos mentais e morais que a nova lógica flexível podia causar.
Hoje ouvi uma história triste. De um grupo de trabalhadores que, ganhando menos que um veterano da empresa – que está lá há 30 anos -, lhe disseram que adorariam que ele fosse demitido para que pudessem dividir seu salário entre eles.
Este homem chegou em casa e assistiu “Madagascar” com a família. Enquanto assistia, se sentiu na pele da zebra, sempre perseguida pelo amigo leão. Depois disso, ele e o outro amigo veterano desenvolveram, com bom humor, uma fórmula teatral, bem didática, para mostrar aos companheiros de serviço a irracionalidade e a deslealdade contidas no desejo deles: levam leões e zebras de pelúcia e simulam perseguições e massacres de mentirinha.
Não sei se a ficção vai fazer surtir o efeito que a opressão e a falta de perspectivas surtiram nos pesquisados de Dejours: a noção de que todos estão iguais na merda e que, para sair dela, é preciso recuperar a noção de coletivo que o individualismo do final do século XX fez a gente esquecer.
Se nem mesmo os colegas de trabalho que desempenham as mesmas funções conseguem perceber os problemas que lhes são comuns, que dirá a sociedade como um todo?
É difícil viver em coletivo, mas a solidariedade não pode se perder em mesquinhezas. Nem de brincadeira. O custo disso é muito alto. Talvez Hobbes fosse um visionário. A guerra de todos contra todos, uma abstração que ele usou como muleta filosófica, ganha traços cada dia mais bem elaborados.

sessenta mil e seiscentas palavras que se esgoelam
Fevereiro 9, 2009chega uma hora em que as palavras saem à forceps e a gente quer mais é que elas cresçam e arrumem um trabalho que lhes dê autonomia. acho que vou sair pra comprar cigarros.

biblioteca sem-teto
Fevereiro 4, 2009A “História Universal da Destruição dos Livros” merece novo capítulo.
Saiba por que, aqui.

realidades e realidades
Janeiro 23, 2009Em março, quando oPME (Pesquisa Mensal de Emprego) do IBGE vier me consultar, espero virar uma estatística “yes, we can!”, pra aproveitar a obamania. Se não rolar, sei que eles vão me chamar de desocupada (quem não tem emprego, mas procura), e que vou fazer um estágio de vivência em identidade da classe operária. E vou me sentir mais classe ópê do que qualquer estudante de luta jamais conseguiu se sentir. Mesmo com ayahuasca. Só não vou causar mais inveja porque vão descambar pro desdém: “pô, justo ela indo pro lado de lá? Vai desagregar, querendo discutir esse falsos problemas”. E vão gritar bem alto no megafone que agora é hora dos trabalhadores do mundo se unirem e darem um basta a Israel e a tudo isso que está aí. Ainda bem que aqui a crise veio no verão. E que a baixada é logo ali…
em tempo:
roubei do ricardo lombardi.

=(
Janeiro 6, 2009Não tem nada mais chato do que escrever sobre uma coisa com a qual a gente não se identifica mais. Depois que eu peguei a foice pra capinar o quintal de casa e o martelo pra pendurar quadros na parede, ler ortodoxias começou a me fazer mal. Eu achava que ser de esquerda era saber ditar a bíblia d’O Capital ou descobrir, em qualquer artigo, que tá dominado, tá tudo dominado. Ainda não sei se foram meus hormônios revolucionários da juventude que se perderam no pote de Natura Chronos +25 ou se conversar com pessoas que pensam diferente me transformou em alguém melhor. Tudo o que sei é que é pesado dar continuidade a um projeto de pesquisa que começou com uma resposta pronta. A sabedoria que fica disso tudo é que a vida ensina e que, no Doutorado, é o mundo quem vai me abrir os olhos e me proporcionar descobertas. E não os livros e o M + D = D’. Faço como Fernando Henrique e rejeito, desde já, este meu primeiro passo como pesquisadora: “Esqueçam o que escrevi!!!”. O processo está sofrido, mas faço o que posso para que esse pequeno Frankstein fique o menos parecido possível com um livro de receitas marxista….

Os livros nos livros
Novembro 17, 2008Sou chegada em livros idosos, tipo esses aí da foto do cabeçalho do blog. Sempre fico imaginando quantas pessoas já não leram o livro que estou lendo e adoro quando pego um, sem querer, com o nome do doador famoso. (O último que peguei era do zé graziano. Falava sobre alternativas econômicas. Intocado.)
O legal mesmo é quando a gente encontra alguma anotação perdida com aquela mesma letra que assinava a folha de rosto. Sempre achei uma emoção ver o que o Sergio Buarque de Holanda escrevia nas partes brancas de seus livros. Dá pra ver lá na coleção não-circulante que leva o nome dele, na Biblioteca Central da Unicamp. Teve uma menina que baseou sua pesquisa nisso: nos comentários do Sergio.
Fico imaginando que se um dia eu virar coleção de biblioteca, vou ter que esconder todos os meus exemplares com comentários na margem. Eles vão da infantil interjeição “dã!” ao mais sincero julgamento gastronômico sobre o queijo produzido pelos Nuer “nham!” (os nuer fabricam seus queijos misturando o leite da vaca com o seu xixi). Pelo menos, eu me divirto. Mas com os xerox dos livros, ou com os meus livros.
Agora, o sensacional é quando a gente pega aquele livro com comentários igual no word: cada comentador, uma cor. Hoje, lia um assim: era um grifo à lápis, outro de caneta azul, outro de caneta vermelha e, como se não bastasse, um baita dum grifa texto amarelo-ensaio-sobre-a-cegueira. Queria sair pelo mundo gritando “Vândalos!”, mas a risada me conteve. Alguma trainee de bárbara castro pegou a caneta vermelha, grifou três linhas, fez um colchete e carimbou: “malandrão!”. Ai, ai, ai… essa minha geração….
