1993 foi o ano que mudou minha vida.
Benedito Ruy Barbasa estreou Renascer (“airá, cairá, iuleio leio lá”)com o João Pedro pisando cacau no terreiro e o Tião Galinha criando o diabo dentro da garrafa.
Tinha lá meus nove anos e meu corpo começava a dar os primeiros sinais de mudança. O meu, o das minhas coleguinhas e o dos meus coleguinhas. As meninas estavam ficando peitudas e os meninos, peludos. Eu não estava ficando peituda. Mas estava ficando peluda!
Foi aí que veio o choque. Além do Tião Galinha e do João Pedro, a novela tinha a Buba no elenco. Foi então que eu tive uma iluminação, um amparo, alguém com quem me identificar: a Buba!

Foi uma tortura. Vivi uns bons meses com a dúvida: seria eu hermafrodita?
Eu, àquela época, não frequentava clube nem fazia atividade física que implicasse vestiário. Também não tinha computador em casa (386?), não existia internet de massa, muito menos o Google (por que, meu deus, por que?). Aí, a imaginação correu solta e a Maria Luísa Mendonça era a única pessoa do mundo que podia entender minha angústia. Ah, Buba, e como eu entendia a sua…
A pulga só saiu de trás da orelha depois da primeira menstruação. Acho que até chorei, de tão feliz que fiquei de saber que era menina. Mas hoje, olhando pra trás, só penso nesse outro grande mal que a formação em um colégio católico tradicional me fez. A repressão era tanta que tinha medo de me expressar. Uma conversa com a mãe resolveria nessas horas, mas e o medo de todo mundo descobrir que eu era o terceiro sexo?
Obrigada, Buba, por ter segurado a minha mão naqueles tempos difíceis. Você foi a heroína da minha pré-adolescência.