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o ministério da saúde adverte: ler luiz felipe pondé faz mal à saúde

Agosto 25, 2008

Luiz Felipe Pondé, intelectual superstar, estreou hoje coluna na Ilustrada. Começou muito mal. A começar pela foto no texto ao lado, de cachimbo, fingindo uma erudição e dignidade que os livros ao fundo jamais lhe conseguirão dar. Os acadêmicos das ciências humanas precisam perder essa mania de fumar charuto cubano, beber vinho francês, comprar livro sem desconto e morar nos Jardins ou em Higienópolis. Precisam aprender que inteligência não vem da freqüência com que se vai à Sala São Paulo ou ao aeroporto de Congonhas. Que a capacidade de analisar a realidade não nasce do vidro blindado do carro importado ou da conversa com a empregada doméstica. E que não, não é normal pagar R$60 em um panetone e R$5,50 em um cafezinho expresso.

Pondé, o intelectual que quer chegar aos 70 com a boca torta, como Hobsbawn, gosta de causar. Seu recalque com o pensamento crítico é tão grande, que ele acaba imaginando argumentos que não estão postos para a teoria social. Foi o que fez hoje, ao atacar o uso do conceito gênero e o seu significado. Disse ele:

De repente é a “ideologia” que ensina você a “escolher” o sexo. Mentira: ninguém “escolhe” o sexo. A palavra “ideologia” deveria ser acompanhada com frases do tipo “o Ministério da Saúde adverte…”. A facilidade com a qual deixamos de falar em “sexo” e passamos a falar em “gênero” (sexualidade construída socialmente) revela a superficialidade da idéia”

Não, Pondé. Não é a ideologia que ensina a gente a escolher o sexo. E ninguém que construa a teoria do gênero disse que podemos “escolher” o sexo. A discussão não é essa, e sim, a da imagem do feminino e do masculino. Ninguém nega a anatomia humana. O que se contesta é a naturalização de comportamentos e de uma moral que regem, com disciplina imperdoável, o que se deve ou não ser ou fazer, a partir de um detalhe anatômico. A teoria do gênero, não à toa, é fortíssima entre as feministas e os militantes do movimento GLBTT, representantes da parcela mais oprimida pelos efeitos comportamentais e posições sociais que um hormônio ou um membro sexual pode definir. O que se busca, e aqui vou ser bem rasa, é desconstruir o vínculo existente entre anatomia e comportamento, entre o que a biologia diz que é e o que os homens definem que se deva ser. Ninguém ignora a testosterona. O que se faz é ampliar o horizonte de pensamento e entender como a sociedade e suas implacáveis leis definem  o nível de agressividade dos homens, por exemplo. Quem nunca ouviu falar de um pai que sorriu quando o filho brigou na escola ou que castigou a menina que cuspiu na rua, pra imitar o progenitor?

Antes o “gênero” tivesse se tornado um pensamento da moda, como diz Pondé. Antes fosse assim, porque não é o que eu vejo por aí, no dia-a-dia, na telenovela, nas páginas dos jornais ou nas conversas em família. Seria motivo de comemoração. Se as escolas e os pais entendessem que menino brincando de boneca não é doença e que as meninas podem jogar futebol, viveríamos em um mundo melhor.

Confundir “ideologia” com “socialmente construído”, Pondé,  é se valer de um recurso que não condiz com sua seara: é desonestidade intelectual. Confunde para atacar aquilo que, ou não aceita e não sabe revidar, ou desconhece e desdenha por puro preconceito. Não consigo decidir qual das duas coisas é pior.

Bela bola fora do intelectual de vitrine. Que exibe sua pose para foto no melhor modelo “o intelectual na era da sua reprodutibilidade técnica” ou “a cópia da cópia”, que nunca consegue ser o que pretende ser.

Em uma coisa ele acertou: a universidade não é um lugar democrático. Os anos que ele passou nela enclausurado e as conseqüências dessa vivência estão aí, escancaradas nesse texto. Pondé, fica um convite: venha conhecer o Pagu ou dê um pulo em Floripa que recebe esta semana toda o encontro “Fazendo Gênero” Vai te fazer bem: se o dissenso faz parte da democracia, conhecer o argumento do outro nunca é demais…

 

 

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